Mundos

10 de junho de 2010

Jardim das delícias, Bosh, tríptico fechado

Vez em quando a gente deve se dar ao luxo de perder tempo.

Como quem perde moeda de um real nas grades do esgoto.

Como quem esquece a caneta bic em sala de aula.

Como quem sai de casa sem pente no bolso, lenço nas mãos, documentos na carteira.

Vez em quando a gente deve se permitir o luxo de tomar café-da-manhã fora de casa, de preferência em padaria popular, dessas sem listerine no lavabo nem ar condicionado na soleira.

Eu, vez em quando, vou ao centro, que por aqui chamam Cidade Alta. Lá na João Pessoa, uma época epicentro do bem e do mal congestionado, tem uma padaria que, bem, não é bem uma padaria, mas um restaurante popular dos mais mal-ajambrados que conheço, ao menos no quesito arquitetônico. Pastilhas de cerâmica de cores tipo carmim e cinza, luzes fluorescentes tipo amarelo-intenso. Cadeiras de ferro amarelo-ovo. Tipo.

Se não prima e se supera pela higiene, tampouco deixa a desejar.

O suco de laranja é correto, o pão francês crocante, o queijo de coalho se funde, amalgama com o miolo branco lambuzado de manteiga tipo Aviação. Ou não: será minha imaginação e licença poética, que uma e outra de braços dados andam e brincam no parque, horas mornas do dia.

O café é ralo, como todo café que se pretende nas casas do ramo. Não se exige tanto e se é feliz. Preto, quente – não basta?

O melhor é a freguesia.

Todo mundo de cara muito boa, dispostos ao trabalho que daqui a pouco começa. E começa pra valer. Na loja de departamentos. Na farmácia da esquina. No negócio de lingeries com anúncios super-hiper-encarnados celebrando mais um dia dos namorados. Nas calçadas, ofertando crédito a fundo infinito em papelotes que o vento há de.

Entre a maioria de mão-de-obra mais ou menos assalariada, dois ou três clientes precoces, na manhã que até então se derrama nos prédios, buliçosa e preguiçosa ao mesmo tempo. Tem a mãe das duas crianças, ainda bonita por trás dos óculos de grau. Tem o casal de noivos, escurinho ele, escurinha ela, como se dizia antigamente sem medo de ferir as mais populosas minorias. Tem a dona do cartório, toda conversa e olhos faiscantes. Tem o casal de amantes, que nunca se dá as mãos – nem por baixo da mesa – mas se olha nos olhos.

Como quem beija flores, ar.

E se despede, num roçar de dedos, num flutuar de passos, enquanto o sol varre as sombras da calçada, trepa nas fachadas e assobia mundos.

4 Já Comentaram para “Mundos”

  1. Chico Moreira Guedes disse:

    Ivo viu a Uva!

  2. Larissa Gabrielle Aráujo disse:

    “Ouça-me bem amor, preste atenção: o mundo é um moinho…” – e um muído com “u” também. Own, nem adianta muito te ensinar isso, né?! Mas, vezenquando eu vou lembrar…

  3. Jarbas Martins disse:

    ainda se assobia, meu caro ledo engano ivo ? assobiar é a forma mais luxuosa de se perder tempo.sou um catador profissional de luxos. este teu nada ameno sítio é um luxo. luxo, por exemplo, é parar num restaurante de beira de estrada, na rota para juazeiro, para comer carne assada, só porque os letreiros da casa estão escritos em gás néon. o estilo midcult de alex nascimento, que luxo.tirar retrato, eu disse retrato, com catherine deneuve, que ainda sobrevive, é puro luxo. nei leandro foi a paris só com essa intenção.para mim luxo dos luxos é ser avô, como o josé serra, e ensinar a netinha a soletrar. lula lá, que desperdício de tempo, meu saudoso carlito maia.

  4. Texto inspirador, meu caro. Aliás, como sempre.
    Saudades de tu!
    S.

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