Muito além das belas cadeiras

17 de novembro de 2010

Em italiano, sedia = cadeira, sedere = bunda

Com licença – estou activia-and-johnnywalkiando para o modo como Jô Soares trata seus entrevistados. Já se tornou recorrente as críticas sobre seu desconhecimento sobre certos assuntos, a má vontade com que trata alguns, a mania de empurrar com o próprio ego a entrevista, que termina virando, não poucas vezes, desculpa para sketches autobiográficos.

‘Xá’pra’lá.

Mas aí Milo Manara vem ao Brasil e é convidado para o programa do Jô. E eu, nem pensei nesses percalços anunciados pela experiência prévia, tão animado fiquei com a oportunidade de ver um dos meus três santos no panteão dos quadrinhos (os outros são Guido Crepax e Hugo Pratt, já mortos). Resultado: péssima entrevista e péssima tradução. Não vou nem comentar o italiano esboçado pelo Soares porque, claro, ele não é obrigado a falar bem nenhuma língua estrangeira – ao contrário do que ele mesmo pensa – e até que enrola razoavelmente, provando que já viajou além da novela Passione. Mas a entrevista. Nossa. O ápice foi achar que Manara desenhava tirinhas de quadrinhos nos jornais.

Então. Chega. Chega desse preâmbulo longo e enfadonho.

*

Meno male, dia desses saiu uma matéria com o italiano no La Repubblica. Contando um monte de coisas que eu gostaria e poderia ter visto no programa da Globo. [Não, não vou traduzir, mas reciclar a matéria, de Michele Smargiassi.]

*

A primeira desse “monte-de-coisas-que-eu-gostaria-e-poderia-ter-visto” é uma surpresa: “Nas longas filas que se formam quando Milo Manara autografa seus livros, quem diria, as meninas são a maioria” – revela o jornal. “E todas querem o desenhinho, e todas dizem: ‘Pareço com as que o senhor desenha, tá vendo?” – revela o entrevistado. Pano rápido, o quadrinista conta que, certa vez em Copenhague, num festival de histórias em quadrinhos, uma menina vestida apenas com um poncho o procura e diz: “Tá vendo? Por baixo estou completamente nua. Me desenha?”

[Glup.]

As mulheres reais querem ser as mulheres hiper-reais de Manara.

Recebo um monte de fotografias, inclusive de pessoas famosas, não vou dizer os nomes. Às vezes são fotos de suas esposas, até um pouco embaraçosas. Querem que as transforme em um desenho meu.

Os homens, claro – os homens babam pelas mulheres de Manara. Seios perfeitos, bocas sensuais, sexo, literalmente, à flor da pele.

Se engana – segunda surpresa – quem acha que o desenho começa por alguns desses atributos: Manara começa a criar suas mulheres a partir do rosto.

É o rosto que faz a diferença. Uma perna, no final das contas, é sempre uma perna.

E, para ser exato, sempre começa a partir do olho. Para ser ainda mais preciso, pelo olho direito.

Não sei por que, mas, se começo do esquerdo, não consigo.

Não usa o computador – “nem mesmo para colorir”. Se considera um artesão. Ainda assim, não reprova o uso da esferográfica.

Qual o problema? As canetas são tratadas injustamente pelos artistas. São mais rápidas que o nanquim, são macias e dóceis.

Manara desenha rapidamente. Acredita que o tempo de produção deve ser proporcional ao tempo de leitura.

Minhas historinhas serão lidas por garotos que as compram na banca de revistas da estação e as devoram em meia hora de trem – devem ter, então, o estilo dessa meia hora.

Isso não impede que seus desenhos sejam detalhistas. Aliás. Fazem a diferença. E, para provar que os detalhes são tão importantes e eróticos quanto o corpo de uma mulher, pega um livro da prateleira, abre, e mostra ao repórter Michele Smargiassi a Vênus de Dresden, de Giorgione.

A Vênus adormecida, também conhecida como Vênus de Dresden (séc. 16)

Você vê uma esplêndida mulher nua, não é? Mas o que realmente importa são as pregas do lençol que se dobram sob o peso do corpo. É isso: nos meus desenhos, se uma mulher está sentada em uma cadeira deve ser um cadeira real, uma cadeira onde você pode sentar-se, a melhor cadeira jamais desenhada. Porque é fácil fazer uma história em quadrinhos pornográfica: basta uma seqüência de corpos nus. Mas o erotismo de verdade está no entorno [da nudez].

E conclui, irônico:

Claro que eu não espero ser lembrado como ‘aquele que desenha belas cadeiras’. Mas se existe um segredo para o meu sucesso, seria esse.

O repórter anota, pertinente: “É curioso como, no final das contas, Manara teve poucos problemas com a censura e até mesmo com as feministas.” Na parede do seu estúdio se vê, emoldurada, uma lista dos livros proibidos na África do Sul à época do apartheid, inclusive alguns seus.

Eram censores, mas não eram burros. Não proibiam histórias eróticas, mas Giuseppe Bergman, que é um hino à viagem e à liberdade.

E as feministas? Nenhum grande problema, quase zero de complicação.

Uma noite, em Siena, enfrentei um coletivo. Terminou bem, elas admitiram que também gostam de erotismo, e que as minhas mulheres não são nada reprimidas.

Nem com a religião Manara parece ter tido grandes problemas: as freiras de Verona já lhe encomendaram um afresco para um convento, e os frades estigmatinos um projeto para um monumento ao fundador São Gaspar Bertoni.

O verdadeiro pecado não é amar o corpo feminino. É fazer dele um atributo de poder.

Quanto à mulher, Luisa, idem: “Não, não tenho ciúmes das mulheres desenhadas por Milo: elas são de papel”, conta, enquanto serve o café e Manara fuma um Havana, para depois, concluir, piscando os olhos para o marido: “Mas é melhor que não se tornem de carne…”

Se devem seduzir o leitor, [as mulheres que desenho] devem antes seduzir-me. Mas não me entenda mal. Quando eu trabalho, eu tenho para com o corpo feminino a mesma atitude de um cirurgião. Até porque desenhar cansa, é uma fadiga física, um trabalho artesanal, e o cansaço não combina com o abandono erótico. Se o desenho funcionará, só vou descobrir no final, quando o olho no espelho, para vê-lo como se não tivesse sido feito por mim.

Smargiassi conta que Manara desenha há 40 anos: “Quando começou, ‘suas mulheres’ tinham a mesma idade. Agora, ele passou dos 65, mas eles ainda permanecem jovens.”

Eu não sei nada dos segredos das mulheres, eu apenas as desenho.

Entre outras curiosidades, enquanto trabalha Manara ouve rock, clássico: Frank Zappa, Emerson Lake and Palmer.

No seu estúdio, “abarrotado de papéis, livros e estátuas de Buda”, não tem telefone.

Não espera nada da tecnologia além de uma conta de e-mail.

Diz que, enquanto desenha, seus “tutores” Hugo Pratt e Federico Fellini estão sempre por perto, “olhando por cima do meu ombro, me criticando”.

Depois de concluir o terceiro volume de Bórgia [lançado no Brasil pela Conrad], está preparando uma versão de América de Kafka. Em seguida, a biografia de uma modelo de Caravaggio, e uma série de desenhos animados escrita pelo cantor e ator italiano Adriano Celentano.

Um Já Comentou para “Muito além das belas cadeiras”

  1. Carito disse:

    Muito bom o post! E que massa que enquanto trabalha ele ouve rock Frank Zappa e Emerson Lake and Palmer! Sensacional! Valeu mesmo!

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