Mr. Bloom

16 de junho de 2010

Não se brinca com professores doutores muito menos com os Franciscos Ivans da vida, inda mais quando, muito além da vida e do jardim, são da universidade federal do Ryo Grande. Derna que eu me entendo de gente – não, não, muito antes, derna que eu era animal, bicho, planta, fóssil – a Capitania de João de Barros comemora o dia em que o seu Leopoldo flana, passeia, flaneia, pela capital da Ireland, sem sombra de Sinéad nem Bono, sem goles de Guinness, o que, convenhamos, é o maior pecado. Como eu nem me aventurei a ler o calhamaço do senhor Joyce, vamos deixar a palavra a quem entende do assunto e do riscado: o profdoc Chico Ivan [mais abaixo] e algumas publicidades da cerveja irlandesa, citações-homenagens ao mágico de Oz e Dante, Inferno, tal.



BLOOMSDAY 2010

Apresenta

EXILES

James Joyce, mais uma vez, Joyce; mais, ainda, James Joyce (1882- 1941). E, por que James Joyce? Como é sabido, que este ano, a cidade de Natal, celebra mais um Bloomsday, o inesquecível dia 16 de junho de 1904, um dia de celebração dedicado a Joyce, o autor de Ulysses, o mais trágico, cômico, dramático, derrotado e glorioso romance moderno/contemporâneo. Romance que conta a solitária “aventura” de Bloom durante esse dia de verão, em Dublin, na Irlanda. O gênero encontrou em Joyce a sua definição mais artisticamente moderna. James Joyce inaugura a posição do romancista moderno frente ao gênero do romance, que depois muitos escritores contemporâneos irão absorver, direta e indiretamente, suas inevitáveis e essenciais influências. Ulysses é, na minha opinião, razão e coração da modernidade. E assim o encontraremos no centro da modernidade, em suas excentricidades, de que dentro de uma linguagem barroca, de formas fechadas e abertas em si mesma, formas modernas que soltam em espirais conteúdos antigos/escolásticos, esse personagem aparece. Imediatamente, de repente, encontraremos Leopold Bloom, o Ulisses antigo e moderno, personagem que se abre para o universo da literatura universal. Abrindo-se para o universo, se abre ao mundo de hoje e afirma, mais ainda, a eterna angústia — essa angústia que é a nossa angústia, sempre a nossa; ou de qualquer modo, a nossa angústia.

Desde sua publicação, em 1922, em Paris, os críticos e grandes escritores tiveram clara consciência da posição peculiar que esse personagem, Ulysses, chamado Bloom, iria tomar dentro do mundo das artes e da literatura. Digo, mundo das artes, porque Ulysses não se limitou apenas ao espaço da arte literária. Ulysses de Joyce penetrou em todos os campos: o cinema, a dança, a música, o canto, a mídia, o teatro e, de certo modo, Ulysses invadiu a vida humana; penetrou em nossa consciência, penetrou em nosso interior e exterior e definiu nosso papel no espetáculo teatral da vida. Ulysses de Joyce está animado por um plurissignificante papel: os signos verbais, isto é, as palavras tendem a se converter em imagens, imagens sonoras, emblemas, imagens que evocam outras realidades, realidades que viram signos: uma linguagem que traça um périplo, uma passagem entre a realidade vista e o pensado pela mente de Bloom, a imagem da escritura, que cria um personagem novo, um verdadeiro monstro, lembro aqui, o Finnegans Wake, um verdadeiro monstro da palavra: algo que rompe a ordem natural e que nos maravilha e seduz.

Este ano, a apresentação da peça, Exilados ( EXILES ), no Teatro Alberto Maranhão, para celebrar o Bloomsday,  basta para mostrar que a Obra de James Joyce tem grande recepção na cidade do Natal. Exiles foi a única peça teatral que James Joyce escreveu. Escrita em 1916, depois de A Portrait of the Artist as a Young Man e antes de Ulysses, foi vista como linha divisória, watershed, entre Um Retrato… e o grande romance que estaria por vir, o Ulysses. Sob direção de W. B. Yeats foi apresentada no Abbey Theatre, em Dublin. Em 1970 teve sua maior apresentação em Londres, sob a direção de Harold Pinter, no Mermaid Theatre. A peça que é a história de um renomado escritor retornando para Dublin, depois de nove anos de exílio, revela muito da própria experiência de Joyce.

As cenas transcorrem no subúrbio de Dublin, na Irlanda; é o verão do ano de 1912. Estamos nós, aqui, no começo do Século XXI; antes de tudo temos que sublinhar, e isto é muito importante, que vista a uma distância de tempo-espaço muito grande, e que dificulta a compreensão do tema apresentado, Exiles produz no expectador uma rica expectativa, uma complexa impressão de incerteza, de dúvida e melancolia… Parece que seus personagens pedem perdão por seus subterfúgios, por suas suspeitas, por se expressarem através de uma linguagem tão ambígua, mas deixando entrever suas idéias com extremada delicadeza. Certo. É sob a direção de Alex Beigui, artista e professor do Departamento de Artes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que vamos assistir a esse espetáculo, no palco do teatro Alberto Maranhão. E não tenhamos dúvida, cada um dos espetáculos montados do texto joyceano transforma-se em outra obra, em outro texto, em uma metáfora do texto original.

Minha expectativa para ver o Joyce em cena, no palco do Alberto Maranhão, começa, exatamente, com esta minha afirmação neste texto. [Francisco Ivan da Silva, Prof. Dr. da UFRN]

PROGRAMAÇÃO

Data: 16 de junho (4ª feira)

9:30 h – Leitura dramática do original: Exiles, de James Joyce. Coordenação: Profª Dª Ana Graça Canan. Local: Teatro Dep. Artes/UFRN

14:00 h – Mostra de vídeos sobre a Irlanda e a obra de James Joyce.

15:30 h – Palestra: Mortos, vivos e exilados, o sublime em James Joyce. Profª Dª Sandra Erickson. Mediadora: Profª Dª Maria Helena Vaz Costa. Local: Teatro Dep. Artes/UFRN

20:00h – Apresentação da peça: Exilados, de James Joyce. Local: Teatro Alberto Maranhão. Direção e adaptação: Prof. Dr. Alex Beigui

PROMOÇÃO: UFRN – Dep. Letras, PpArtes – CCHLA, Pró – Reitoria de Pesquisa

COORDENAÇÃO GERAL: Prof. Dr. Francisco Ivan da Silva

6 Já Comentaram para “Mr. Bloom”

  1. Jarbas Martins disse:

    Pra que ver essa peça, meu caro Chico Ivan ? Derna que eu era fóssil, como diz o Mario Ivo, que você
    e James Joyce vivem representando EXILES em Natal. Sucesso, nesta nova empreitada, e um abraço de estima e consideração.

  2. Laélio Ferreira de Melo disse:

    Bloomsday’s e Baobás em Natal – Grande Frescura!

    M O T E:

    Bloomsday? Isto é frescura
    Por que não Itajubá?

    G L O S A:

    Ó Alá, que noite escura
    aqui na minha cidade!
    Imensa é a mediocridade:
    Bloomsday? Isto é frescura!
    Quem os “donos” da cultura?
    Jornalistas do jabá,
    imortais do baobá,
    os professores, doutores?
    - minha terra tem horrores,
    por que não Itajubá? (*)

    (*) Manuel Virgílio Ferreira, ou Ferreira Itajubá (Natal, 21 de Agosto de 1876 – Rio de Janeiro, 30 de Junho de 1912) foi o maior poeta potiguar, de todos os tempos.

    *****

    Canção do Exílio Araqueado

    (Imitação burlesca)
    Laélio Ferreira

    Minha terra tem besteiras,
    Quantas asneiras têm lá;
    Bloomsdays e Exuperys
    À sombra de um baobá.

    Nosso céu tem mais fumaça
    Do que no Beco da Lama,
    Nossos vates mais produzem
    Quando encostam um chara à chama.

    Cismando, sozinho, à noite,
    Se mais grana encontro eu lá;
    Minha terra tem jornais
    Onde se arranja o jabá!

    Minha terra tem horrores,
    Que tais não os vejo por cá;
    Em pensar – noite e mais noite –
    No que vou fazer por lá;
    Minha terra tem besteiras:
    Me agarro com o baobá!

    Não permita Alá que eu corra
    Dos imbecis que tem lá;
    Sem que malhe os capadócios
    Que não encontro eu por cá:
    Bloomsdays e Exupérys
    Arrenego, quá-quá-quá…!

  3. Laélio Ferreira de Melo disse:

    DEU NO BLOGUE DE FRANKLIN JORGE:

    Publicado em O Santo Ofício | Nenhum comentário »

    BLOOMSDAY ALOPRADO
    18 de junho de 2010 Por Laélio Ferreira

    Eureca!

    Descobri, agora, depois de velho, como se deve fazer para entender o “Ulisses” de Joyce! A receita – entre aspas, abaixo! – é de uma médica paraibana (Clotilde Tavares) que ensinava teatro na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Agora, só me resta saber como chegar ao “estado completamente alterado de consciência” do citado poeta “Sopa D’Osso”… Os grifos, abaixo, não são do original.

    ABRE ASPAS: “Em Natal, durante alguns anos, chefiei as comemorações do Bloomsday junto com Arlene Venâncio, na época aluna da pós-graduação do curso de Letras e que era entusiasmada com Joyce. Fizemos umas duas ou três comemorações na antiga A.S. Livros e uma na Bienal do Livro de Natal em 2003, que coincidiu com o Bloomsday.

    Este dia é comemorado em todo o mundo e as comemorações exigem que as pessoas declamem poemas de Joyce, bebam bastante, cantem e façam aquilo que se chama a “polifonia”: depois de ler o trecho final do monólogo de Molly Bloom, que encerra o livro, em quantas línguas forem possíveis entre os participantes, lê-se novamente o trecho em todas as línguas, em voz alta e ao mesmo tempo. Cabia a mim ler o trecho em português, o que me deixava sempre muito feliz.

    Além da polifonia, que tinha um efeito final muito excitante, lembro-me do belo Paulo Marcelo, aluno também da UFRN, cantando a canção irlandesa Molly Malone e finalmente do acontecimento mais inusitado que penso já ter havido em qualquer Bloomsday: na comemoração que houve na Bienal do Livro, no auditório repleto, enquanto se sucediam os recitativos, o recinto foi invadido pelo poeta Sopa D’Osso, emblemático na sua magreza, com seu sobretudo verde-escuro, olhos loucos, estado completamente alterado de consciência, a declamar um poema de Joyce traduzido por ele para o tupi-guarani.

    Fique então com o trecho final do monólogo de Molly Bloom, que é todo escrito assim mesmo, sem pontuação, pois essa era a técnica de Joyce, o famoso fluxo da consciência. Leia em voz alta e não procure entender. Deixe-se levar pelas palavras, deixe-se tomar pelo som da sua voz e comemore hoje comigo, com todos os leitores deste blog e com todos os joyceanos do mundo este escritor sem par, esta obra sem fronteiras.” FECHA ASPAS.

    Arre égua!

  4. Jarbas Martins disse:

    Nada contra o Bloomday’s, que já se firmou como evento em nosso pobre calendário cultural.O professor Francisco Ivan merece todo nosso respeito, por ter difundido na cidade (se bem que ainda restrito ao círculo acadêmico) o conhecimento da obra de James Joyce. Com competência e zelo profissional o professor-doutor Francisco Ivan soube tocar o seu projeto para frente, com a colaboração de talentosos alunos e ex-alunos seus, de artistas talentosos como J.Medeiros ( que integra o quadro de funcionários da UFRN) e de professores como o físico e escritor João da Mata. A cada ano o Bloomday’s parece dizer que veio para ficar.Parabéns também para o blog de Mario Ivo que deu o destaque merecedíssimo para o evento.
    Força e saúde é o que lhe desejo, meu caríssimo Chico Ivan.

  5. Laélio Ferreira de Melo disse:

    Jarbas, meu poeta.

    Ainda bem que vosmecê reconhece que o Bloomsday do professor-doutor – graças a Deus! – fica restrito aos pináculos do círculo acadêmico e que é pobre o calendário cultural da “filha de Poti mais bela”…
    Para o próximo Bloomsday – para dar uma cor mais local e mais democrática, mais popular ao evento – sugiro uma apresentação (uma performance, tá na moda!) do poeta Sopa D’Osso, devidamente paramentado com o “sobretudo verde-escuro” de que trata acima, no meu comentário, a acadêmica Clotilde Tavares. E que, na festança, o festejado bardo, ao recitar um poema de Joyce em tupi-guarani, esteja de olhos loucos, em completo estado alterado de consciência… Como ele consegue a tal eu não sei, mas acho que é fácil conseguir a receita, na própria UFRN.
    Afinal de contas, o roteiro da comemoração, com mais detalhes, quem dá (v. acima) é a citada professora Clotilde.
    Eu continuo preferindo uma homenagem que fizessem as Academias, as duas, ao divino Ferreira Itajubá, ocasião na qual Fernando Tovar, nosso último modinheiro, cantasse a “Barcarola”…

  6. Jarbas Martins disse:

    Meu caro Laélio, de certa forma concordo com você.Itajubá, poeta amado por nomes como Mário de Andrade e Manuel Bandeira, e não somente por eles, mas pelos leitores natalenses da boa poesia, merece ser celebrado.Aliás todos os nossos poetas, da qualidade também de um Henrique Castriciano, Othoniel Menezes, Jorge Fernandes, Zila Mamede e os que se seguiram a esses em qualidade, merecem ser celebrados.O problema reside no fato de como celebrá-los, eliminando o elitismo arrogante da crítica universitária ( há exceções, claro) e um oportunismo, que mal oculta seu lado mercenário, advindo de pessoas sem ética e preparo intelectual.O Dia da Poesia Potiguar pode muito bem conviver com O Dia de Bloom, sem interferências de elitismos, arrogâncias, despreparos e populismos. Que acha, meu caro Laélio ? Que acha, meu caro Chico Ivan ?

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