Mortes

7 de agosto de 2010


Tenho poucos mortos em mim. Devia estar contente, há quem os tenha em legião. O primeiro deles, minha vó, inaugurando a infância, a altura do caixão no centro da sala impedindo a visão da morte. A morte então era inalcançável. Cineastas já recriaram essa cena, romancistas já descreveram a situação, poetas versejaram a escuridão das tábuas de pinho. Só eu a vivi como a vivi. Numa manhã. Numa sala. Numa infância.

De outras mortes, meu avô, às vésperas do vestibular. Tão natural que se tenha ido que as dores não duraram muito.

Um primo, que morava no Rio, e tão logo chegou em Natal, um motorista irresponsável, quase cego, surdo, mudo, retardado, filho-da-puta, o matou. Moto. Meu primo andava de moto. Meu primo morava no Rio. E a morte não chegou tão perto.

Umas tias distantes.

Então, veio a morte do meu pai.

A orfandade não acaba nunca.

A orfandade não temina nunca.

Dela, nunca se sai.

Um Já Comentou para “Mortes”

  1. lissa disse:

    justamente hoje, 7 de agosto, era aniversário do meu pai, que também já morreu. e você tem toda razão: essa é uma orfandade que nunca vai embora.

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