Maria Emília

24 de julho de 2009


Maria Emília Wanderley sorri com os olhos. Abraça com os olhos. Afaga com os olhos. Mas não saberia dizer a cor dos olhos de Maria Emília. (Azuis? Verdes? Uma mistura dos dois?) Será porque – sorrisos, abraços, carinhos, não têm cor. Será porque – são simplesmente claros, transparentes, transbordam alegrias. Será porque – no fundo, no fundo deles, lá longe e ao alcance do interlocutor, repousam horizontes, planícies, chãs. Não é preciso olhar nos olhos de Maria Emília para descobrir como ela conquistou tanta gente no mundo dito literário, microcosmo da província com ares de constelação, entre infinitos amigos e ao menos dois companheiros de vida real – os poetas, de versos, de alma, de vida, de coração, Berilo Wanderley e Nilson Patriota. Os poetas se foram e Maria Emília ficou. Só? Jamais. Maria Emília não tem espírito de carpideira. Quando chora, chora só, e discretamente. (Posso estar a imaginar, ou a inventar, ou sei, mesmo, que importa?) Maria Emília tem, mais que a certeza, a clareza de ter vivido ao lado de pessoas memoráveis, que, como ela, não conquistaram apenas as tais caras-metades, mas uma legião de amizades sinceras e duradouras, de amores eternos enquanto duraram.

Foi por essa alegria – e por que não dizer? pelos seus lindos e belos olhos – que Maria Emília conseguiu concretizar o que parecia impossível: reunir, num só dia, hora e lugar, quase todos os poetas, cronistas, escritores e jornalistas de uma geração que entraria definitivamente para a história cultural desta província entre os anos 50 e 60, e cujo ápice coletivo se deu em 1961 através dos sete livros da Coleção Jorge Fernandes – Augusto Severo Neto, Celso da Silveira, Deífilo Gurgel, Dorian Gray, Luís Carlos Guimarães, Myriam Coeli e Sanderson Negreiros eram os “magnificent seven” de antão. Dos sete, apenas três restam vivos – mas todos os três estavam lá, terça-feira passada no Lula Restaurante, Morro Branco, quase esquina – vejam só – com a Rua da Saudade.

E não é excesso dizer que, em verdade, estavam todos lá, os vivos, os mortos, as companheiras, os amigos, uma Grande Família, enfim, o retrato de uma cidade que teima em resistir.

Todos reunidos em torno de Maria Emília e do homenageado principal, Berilo Wanderley, que teve o relançamento de sua estréia, “Telhado de sonho”, safra 56, presenteado a quem apareceu e sentou-se ao redor de uma grande mesa em formato de “U”, uma verdadeira antologia em carne e osso: Nei Leandro, Diva Cunha, Tarcísio Gurgel, Inácio Magalhães, Vicente Serejo, Woden Madruga, Paulinho de Tarso Correia de Melo, e os já citados Deífilo, Sanderson, Dorian, mais viúvas, mães, mulheres, musas.

As histórias remontavam meio século. Falavam de amor – uma ou outra pitada de ciúmes, claro –, falavam de paixão, resgatavam a boêmia, saudavam as letras.

Ninguém chorou. Todos sorriram.

*

Caicó

Quem diria? A onipresente Khrystal nunca foi a Caicó – pois, dia primeiro de agosto corrige a falha na Festa de Sant’ana.

Antes disso, neste fim de semana, Moacy Cirne aporta na Vila do Príncipe para a comemoração dos 50 anos do Bar do Ferreirinha, “o mais tradicional e charmoso”, segundo o blog homônimo (que vale uma visita).

Restauração

Até que enfim uma boa notícia: a prefeitura de Assu vai recuperar o Cine-Teatro Dr. Pedro Amorim. A Petrobras banca, através da Lei Câmara Cascudo de Incentivo à Cultura.

Segundo Anchieta Fernandes, em seu “Écran natalense”, o cinema é da década de 40, século passado.

shopping

Domingo tem mais um (ou uma) Ribeira das Artes – sebos, antiquários, shows etc. Segundo Hilneth Correia, “uma alternativa agradável e diferente da rotina dos shoppings”.

Sem ar condicionado, praça da alimentação e estacionamento coberto – claro.

CAETANA

Mick Jagger e Roberto Carlos na disputa pelo 2o e 3o lugares de quem provavelmente morre primeiro; Chico Buarque e Sean Connery na peleja do 4o e 5o; e Tony Bennett, coitado, disparado na frente com o dobro dos votos do segundo colocado.

É a opinião dos leitores virtuais de Alex Medeiros respondendo a pergunta “Quem será o próximo astro a bater as botas?”

PROSA

“A vida da gente nunca tem termo real.”

Guimarães Rosa

Grande Sertão: Veredas

VERSO

“Sorria como querendo bem. / E todavia não era amor.”

Manuel Bandeira

“A dama branca”

3 Já Comentaram para “Maria Emília”

  1. Henrique disse:

    Grande Mario Ivo, poeta iluste, escritor dos mais nobres, venho aqui agradecer sua proeza, sua magia e sua crônica que deixa a mensagem de que há sempre uma grande mulher atras de um grande homem, e no final das suas palavras leio que "ninguem chorou e tods sorriram", porém vc me fez chorar, valeu,
    Henrique Wanderley

  2. mario ivo cavalcanti disse:

    … e lembro agora q em 79 a gente subia a ladeira do salesiano, vcs rumo ao chácara, eu seguindo em frente, passava pela potengi, mureta baixa do atheneu, dobrava a rodrigues alves, via a estátua do leão, embiocava pela mipibu até chegar em casa, trinta anos atrás – hoje, enfim…

  3. Milena disse:

    Muito bonito o que vc escreveu sobre minha mãe. E vc não é único a admirá-la. Acho que aquele foi um encontro único que ninguém vai esquecer. Tive pena de não poder ter participado dessa reunião com tanta gente que eu quero bem.
    E aproveito a oportunidade p/dizer que estou adorando ler suas crônicas. Vc escreve muito bonito! Parabéns!
    Abraco,
    Milena Wanderley Öhlund

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