Com centenas de quilômetros de praia e mais uma reca de cineastas, o Ryo Grande (North) bem que poderia participar do San Francisco Ocean Film Festival. Ou, quem sabe, promover algo semelhante (mas aí estou querendo demais, claro).
Noves fora, fica pro próximo ano que, para este, a festa já acabou: o vencedor foi In altro mare (“em outro mar”, jogo de palavras que tem mais a ver no original italiano com “em alto mar”).
E pra quem pensa que um festival assim limita-se a falar de baleias, pingüins, massacre de focas etc., o vencedor mostra uma comunidade de 20 mil pescadores no Golfo de Gloucester, ao norte de Boston, todos eles ou quase todos descendentes de italianos de uma mesma cidade siciliana.
Também na contramão da obviedade, o então favorito, Sea of darkness, documentário sobre três surfistas que giram o mundo em busca de grandes ondas e que se metem com o tráfico de drogas para sustentar o vício pelo surf. O título remete a Heart of darkness, de Joseph Conrad (que já tinha inspirado o inspiradíssimo Apocalypse now, de Coppola).
Como sugestão para os cineastas potyguares, eles bem que podiam começar lendo Jangada, do senhor Luís da Câmara Cascudo, verdadeira enciclopédia que permite mil e uma interpretações e inspirações.
Lá pras tantas, por exemplo, ele descreve:
A tentação maior, sweepstake legítimo, é a pesca do Voador ao norte, Cajarana, Três Irmãos, Santa Maria, Caiçara, Jacaré, Galo Grande, Galinhos, de abril a junho desde os escuros de maio ao São João. A “safra”, em Caiçara ou Galinhos, reúne mas de cem botes, fora as jangadas. Vêm de todas as praias e da Paraíba.
Enquanto o Voador morre as ovas expelidas alastram-se, tapando a rede de jererés pelas malhas, subindo pelos cabrestos do banco de vela, fechando o samburá, agarrando-se às tamancas dos calços do remo e do banco de governo, cobrindo com sua viscosidade luminosa a jangada inteira, dificultando o passo, ameaçando afundá-la.
Durante a safra do Voador as praias de pescaria animam-se com todos os folguedos, bailes, feiras, tocadores de sanfona, cantadores de emboladas e desafios, namoros, casamentos, raptos, brigas, riachos de cachaça, dinheiro fácil, cosmorama, lanterna mágica, cinema de pilhas, mamulengo, batizados, vinte motivos outros desde a satisfação de compromissos marcados para aquela data até sucessos imprevistos.
Não sei se a pesca do Voador ainda resiste, nem dos folguedos nas praias citadas. Se ninguém filmou, ao menos resta o poder da palavra escrita.
Amém.

