Longa jornada tarde adentro

29 de novembro de 2010

Hopper, Road in Maine, 1914

Então, com a desculpa esfarrapada que a sua casa ficou entregue aos ratos, às baratas, às pulgas, piolhos e carrapatos, todos mortos ou prestes à, por ocasião da visita agendada do rapaz da dedetização, você se impacienta porque, não, não poderá dormir em casa, e toma, num impulso, num repente, num desatino, a estrada rumo ao sul, porque o sul é sempre uma rota incerta.

O sol em declínio – meio-dia já vai longe, despencou do arco do céu – em descida e ainda forte, espapaçando seus raios no pára-brisa, como se a própria Janis Joplin cantasse Summertime reclinada sobre o capô, mas, não, o que você ouve é o último de Eric Clapton e, nossa, como o último de Eric Clapton está bom.

E você deixa a cidade pra trás e encara toda uma estrada à frente, e tudo passa, e tudo fica pra trás, as plantações, os rios, pontes, os postos de gasolina, o tempo.

Não há um destino preciso, só a solidão por companhia. E esse é o experimento: viajar só, no mundo. Céu azul, verde à direita e à esquerda, asfalto moendo, longe é logo ali.

Na primeira possibilidade de destino, você desiste, vai além. E tudo se repete, a Janis reclinada sobre o capô, bebericando doses homéricas de Southern Comfort, a guitarra de Clapton afagando a paisagem, os carros em fila, película escura, abastecendo nas bombas de gasolina, um e outro desavisado cruzando a rodovia com um saco de mangas na mão, com um tabuleiro de alfenins ao ombro, com uma sacola de trapos arrastando pelo chão, e, acreditem, um casal, cada qual portando com dignidade um bolo de aniversário, cobertura de chocolate derretendo baixo sol.

Easy rider, sem destino.

Na próxima entrada, mantenha-se à direita, informa a placa. E vamos que vamos, rumo do mar, canaviais, oceanos, engenhos modernos e ninguém na estrada, a não ser aquele Mercedes cor de prata, veloz, sem dar tempo de enxergar se, sim, é ela ao volante. Oh lord won’t you buy me a Mercedes-Benz?

Na chegada, em solitário, o mar, a baía, barquinhos ancorados. Contei quase cem, noventa e sete pra ser exato.

Todos balouçando.

4 Já Comentaram para “Longa jornada tarde adentro”

  1. antonia maria de araujo fernandes disse:

    Belo texto para celebrarmos dezembro. e a graça, a sensibilidade que o autor possui de despertar os mais ternos sentimentos…

  2. antonia maria de araujo fernandes disse:

    Aviso aos navegantes desavisados: (…) ´PORQUE O SUL SEMPRE É UMA ROTA INCERTA…
    Isso é o que nos dá o prazer de que a caminhada será muito prazeirosa

  3. Jarbas Martins disse:

    P S I U!
    tua prosa errática
    é melhor que Eugene O’Neill

  4. Luana disse:

    Só descobri que oera em Natal depois do saco de mangas… texto lindo.

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