Julgai e condenai

22 de março de 2010

A semana começa com uma ruma de julgamentos, para todos os gostos e públicos.

Em cadeia nacional, o julgamento, real, do casal Nardoni. Acusado o pai de matar a própria filha, acusada a madrasta de matar a enteada, uma tragédia grega encenada na periferia paulista para deleite da audiência televisiva e da plebe habituada à bigbrotherização do cotidiano. A reconstituição do crime, em computação gráfica, deve ter sido exibida mais que Avatar. Se der tempo, aposto que vão providenciar uma nova reconstituição em 3D, aproveitando os milagres da tevê digital.

Outro julgamento, esse mais informal e já com ares de condenação antecipada, o do Santo Daime. O cipó amazônico tem menos seguidores do que os amantes do açaí na tigela, mas a mídia nacional não dá colher de chá para quem insiste em se desviar do caminho traçado que leva aos lugares-comuns e ao uísque doze anos dos contrabandos e free shops da vida. A tal mídia nacional (leia-se Veja) acusa a ayahuasca de ser um alucinógeno poderoso capaz de incentivar assassinatos.

Ora, mas que essa. Quando eu era menino – e não foi na mineira Barbacena mas entre dunas, rio e mar – ouvia dizer que a maconha era uma droga poderosa. Quem fumava era bandido, e não apenas fumavam, mas tragavam também. Como eu sou do tempo em que quase ninguém morava em apartamento, o trabalho da bandidagem era uma moleza: encontrando uma frestinha qualquer, tratavam de expulsar a fumaça maldita dos pulmões, que se espalhava perigosamente pelas casas d’antanho, deixando as famílias inconscientes. Ou seja, na maior viagem.

Como antigamente tudo era melhor – dizem – até os bandidos eram mais mocinhos: buliam apenas na propriedade, deixando a família e a tradição em paz.

Ou, muito me engano. Afinal, outra seita muito mais antiga, a igreja católica apostólica romana, também está sendo julgada, acusada que é de bulir com uma ruma de meninos em todos os cantos do planeta, que, como se sabe, é redondo e desprovido de ângulos.

Sendo assim e assim sendo, vou aguardar a descoberta que o casal Nardoni era adepto do Santo Daime e que as coisas voltem ao seu devido lugar: um lugar onde bandido é bandido, pais de família não matam os próprios filhos e os roubos, se inevitáveis, acontecem sem violência. Na maior viagem.

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