Hoje eu acordei morto

24 de março de 2011

Edward Weston, Dead man, Colorado desert, 1937

Hoje eu acordei morto. Liguei pra minha dentista e desmarquei pela segunda vez consecutiva a sessão. Na primeira eu não estava morto, não – na primeira eu ainda não estava morto, porque, enfim, para estar morto basta ter estado vivo. Um minuto, um segundo antes. Vai saber dessas intercorrências da morte, mas isso é título de Saramago ou não?

Hoje eu acordei morto. Não atendi dois ou três telefonemas, um do banco, outro de uma poeta, o terceiro não lembro nem sei se existiu. Quando se está morto, os telefones não param de tocar, é certo e sabido. Aliás. Os telefones sempre tocam quando se morre. Os nossos, os deles, os dos outros. São os sinos hodiernos. As campanas. Dobrando, versejando, festejando, fulano morreu, viva fulano, agora é a vez de sicrano pegar beltrana, mas isso é raciocínio de Nelson Rodrigues ou não?

Hoje eu acordei morto. Preparei um café, porque os mortos podem até descuidar dos dentes e recusar chamadas, mas como precisam de um cafezinho quente, capaz de levantar defunto, se é que me entendem. O café, quando se está morto, acreditem, é um negócio do Paraíso. Aliás. Ainda não me foi dado o direito de ser servido por um anjo de asas fenomenais, mas é porque sou apenas um recém-morto, esperem eu ter mais um tempo de sepultamento. E isso poderia ser uma narração de García Marquez ou não.

Mais provável que não.

Hoje eu acordei morto. Sob as cobertas. Liguei o ar condicionado e chovia lá fora. Como morto, eu ainda identificava a chuva caindo. O som da chuva não muda, creiam-me, para os mortos ou para os vivos. Meu cadáver ainda não fedia, claro, olhei para o dedão do meu pé e ele até parecia vivo, tanto, que se mexeu. As cobertas restaram no chão, não se exige de um morto a casa arrumada. Dei uma olhada no tempo, ao menos os passarinhos pararam de cantar. Não me dou com passarinhos, não me dava, vivo, imagine agora, morto.

Provável. Que sim.

Hoje eu acordei morto. E zanzei pela casa, como se morto estivesse. Tudo no lugar, o unicórnio na sala, o urso polar na geladeira, o elefante de plástico flutuando pela janela entreaberta. Nenhum cachorro me sorriu latindo. Afinal, isso não é uma música de Carlos, Roberto. (Ou sim.) Nem eu voltei de lugar algum, a não ser pelo fato de que adormeci vivo e.

Hoje eu acordei morto.

4 Já Comentaram para “Hoje eu acordei morto”

  1. Marize Castro disse:

    “And so, as Kinsmen, met a Night –/ We talked between the Rooms – Until the Moss had reached our lips – And covered up – our names –”

    estes versos de emily poderiam ser a epígrafe do seu texto. ótimo texto, amigo. ah, como ficaram as fotos noturnas? o nosso fotógrafo notívago ficou satisfeito?

  2. Mario Ivo disse:

    “I died for Beauty – but was scarce/ Adjusted in the Tomb”. | nosso don juan inda não me fez ver os fotogramas. aguardemos. oremos.

  3. Jarbas Martins disse:

    O fantástico que não se encontra em Borges, Cortázar e no surradíssimo Gabriel Garcia Márquez.

  4. chico m guedes disse:

    e eu num dia cadáver-adiado-que-não-procria fico olhando janela afora procurando o que dizer.

Deixe um Comentário