Gentinha

26 de outubro de 2010

Ilustração de Valentina Ravagni para Chapeuzinho Vermelho

Aí eu cheguei em casa e antes de tirar os sapatos e descalçar as meias e ir ao banheiro e urinar um jato quente e sonoro sem pingar nada, nem mísera gota na borda do vaso, que, sim, além de boa pontaria tenho boa educação, pespeguei no twitter, única frase de uma só palavra:

Gentinha.

Foi em minúscula e com ponto final. Escrevo sempre em minúsculas no twitter e nem sempre pontuo, faço questão de esclarecer, sem esclarecer nada.

Aliás, sobre clarividências e esclarecimentos, um leitor logo se apressou em questionar:

Quem?

No sentido de “quem é ‘gentinha’?”. Reconheço. Nem foi tão curioso assim. Eu mesmo detesto mensagens cifradas para destinatários ocultos. Até, um dia, sentir vontade de fazer o mesmo. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, reza a lenda e o popular. Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço.

Então. Logo respondi ao leitor, ainda vago:

Múltipla escolha.

Cada um que escolha quem denominar “gentinha”.

No meu caso específico, não vou dar nome aos bois nem batizar vacas, galinhas e outros animais de fazenda e presépio. Me abstenho. Por que não? Quem quiser que se incomode, quem quiser que vista a carapuça. Quem quiser que chie, rosne, estrebuche.

Tire as calças e pise em cima, como diz, novamente, o vulgo.

Tenho lá os meus motivos.

E se o recado, enquanto dúbio, não chegar ao destinatário, paciência.

É apenas um desabafo entalado na garganta. Um espinho no pé. Unha encravada.

Falo por mim, e basta.

É gentinha, sim. Quem não se reconhece em si mesmo. Quem usa dois pesos e infinitas medidas. Quem é injusto – não consigo mesmo, que cada um se responsabiliza ou deveria se responsabilizar pelo mal que se impinge – mas com os outros. Quem é covarde, omisso, quem lava as mãos e esquece de lavar os pés e principalmente a boca antes de se deitar, tchic-tchic-tchí, depois de acordar, tchic-tchic-tchí, como canta a musiquinha do creme dental. Quem não tem certeza nem nunca terá, como na outra canção. Quem não tem vergonha na cara, ou, pior, finge ter, quando lhe é conveniente. Quem é, abaixo de tudo, covarde.

Então, gentinhas do meu Brasil e além fronteiras, uni-vos. A vós, o anonimato.

Da minha parte, vou-me já. Cacofonista, mas coerente.

2 Já Comentaram para “Gentinha”

  1. soraia disse:

    antes que muitos peçam licença prá…e saiam de cena, melhor lembrar que “em boca fechada não entra mosquito”. há nuvens pesadas de muriçocas, aedes aegypti e mosquito do calazar.

  2. Gabi disse:

    Réee, curti, só na classe hein?

Deixe um Comentário