Eu tenho uma planta

9 de dezembro de 2012

Mark Roberts, Vita occulta plantarum

Eu tenho uma planta.

Uma única planta.

Já tive outras plantas, neste apartamento, em outros apartamentos, casas, quintais. Já tive jardins.

Todas, todos, morreram, ou foram embora, ou fui eu quem partiu.

Não tenho notícias delas.

Num attico, em San Lorenzo, Roma, adotei plantas que não eram minhas. Cuidei como se minhas fossem. (Eu estava afastado da minha filha e isso explica naturalmente um bocado de coisas.) (Não explica, claro, porque até os pratinhos debaixo dos vasos eram lavados por mim numa obsessão quase maníaca.)

Pois foi, pois é.

Sempre gostei de aguar plantas, grama, capim. Se brincasse até a piscina eu molharia.

Isso explica muita coisa.

Dar água.

Dar água, regar, é atividade sublime, supera até mesmo o lavar pratos, outra das ocupações transcendentais. Devem sentir-se assim os místicos quando em comunhão com o deus. Das pequenas, ínfimas, infinitas coisas.

No verão ainda mais embora não se possa desdenhar das noites de inverno.

E. Não basta à terra ser molhada, em suas raízes íntimas. Há de se revolvê-la, com delicadeza, um ancinho, uma colher, uma concha.

Mas. Dizia. Que me alongo. Eu tenho uma planta.

Uma noite, minha namorada a trouxe, de uma cerimônia hare krishna em homenagem a uma moça suicida.

Me contou sua história. Um tanto triste quanto qualquer história suicida. Eu não conhecia a moça.

Dias depois minha ex-mulher contou uma história diferente. Não contradizia a história contada pela minha namorada, mas acrescentava muitos pontos então inéditos. Era, de um certo modo, uma outra moça que se apresentava a mim. A mesma planta. A mesma moça.

Então, me dei conta que essa moça eu a conheci. Quase um ano atrás no aniversário da minha filha.

E fui apresentado a ela pela terceira vez em poucos dias, desta vez por mim mesmo.

Lembrei do seu sorriso invisível, do seu ar inquieto, do seu não menear de cabeça como se quisesse mas não conseguisse afastar pensamentos. Se a tristeza deixasse vestígios ela estaria coberta de um pó diáfano dos pés à cabeça. Um véu. Uma noiva da melancolia.

Foi então que me dei conta que essa planta tinha sobrevivido ao meu eterno e eventual e recorrente descaso – com minha casa, com meus móveis, e com as outras plantas que a precederam.

Comigo mesmo.

Para alguém a quem só poderia se confiar uma tartaruga que sobrevivesse dias sem comer, eu até que tinha me dado muito bem. A planta – essa planta, essa espécie – precisa de muita água: vai saber como. mas consegui, miraculosamente, suprir-lhe a quantidade necessária.

Desde então não deixo mais ao acaso os cuidados que necessita.

É a primeira coisa que faço ao me levantar: água. (E agora ela repousa num belo vaso de terracota.) Várias vezes ao dia vou ter com ela. Examinar-lhe as folhas, se novo botão desabrochou, se a terra lhe está úmida como deve.

Hoje sei que não sou eu apenas quem cuido dela.

Bem mais, é ela quem cuida de mim.

 

4 Já Comentaram para “Eu tenho uma planta”

  1. Paulo Procópio disse:

    Beleza!

  2. Márcia disse:

    Maravilha! Que alegria imensa poder ler VOCÊ outra vez!

  3. dimetrius disse:

    massa, man

  4. Tahíse Medeiros disse:

    Oi Mário Ivo, adorei seu texto!! De uma sensibilidade quase feminina como lembro de vc. Sempre que vou em Natal pergunto por vc, mas nunca te encontrei. Fico feliz de saber que vc faz o que gosta e pelo que vi, com muita propriedade. Um abraço.
    P.S. Se não lembrar de mim, recorde dos tempos da UFRN, quando vc e eu ainda éramos estudantes e fícavamos na lanchonete da Mariquinha divagando sobre o futuro….

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