Esplendor e sepultura

11 de março de 2010

Atire a primeira pedra quem não cometeu um deslize com a língua pátria.

Sou o primeiro a descansar o seixo no chão.

Mas.

Um arranhãozinho aqui, cicatriz mínima e imperceptível ali.

E tudo nos trinques.

Mas tem gente exagerando. Cento e quarenta e quatro é o numero da besta. E o twitter sua terra prometida. No ritmo sôfrego que vai, daqui a pouco totalmente devastada.

Feito aquela, de Gengis Khan – que, por onde passava, com sua tropa de mongóis, nenhuma grama mais brotava.

O twitter e seus seguidores parecem desconhecer a dúvida. O que me levou a perguntar, dia destes: por que as pessoas insistem em escrever “mais” quando o que pretendem, realmente, é dizer “mas?

Ainda elenquei algumas alternativas: a) questão de sotaque; b) burrice; c) não tão nem aí.

Acho que vence, disparado, a letra cê. (Que, por sinal, apresenta o verbo numa conjugação contraída – estão, ‘tão. Antes que me apontem o dedo. Mas isso é questão de estilo, bebês, gostem ou não, proposital. Consciente.)

Então, ninguém [de novo] nem aí. Ninguém está muito preocupado com detalhes. Ninguém tem dúvidas sobre como escrever. Se nem o Google salva, não é de se esperar que recorram ao Houaiss ou que velho Aurélio gentilmente abra suas páginas e os acuda. E os salve.

Trocar mas por mais é grave. Muito grave.

Podem até achar que estou exagerando. Não. Estamos nos acostumando mal, perdoando esses delitos de lesa-língua. Pra piorar, inventam de mudar o que nem aprendemos em séculos de má educação. Como o danado do hífen.

Outro dia, uma senadora da República Federativa do Brasil, tuitou: “agora a pouco”.

E um jornalista diplomado, ou um diplomado jornalista: “o contrato saiu a trinta dias”.

Errar é humano – reconheço. Trocar “há” por “a” é outra coisa.

Nem coisa inculta e bela,
como queria Bilac, nem esplendor e sepultura.

Apenas ganga impura.

4 Já Comentaram para “Esplendor e sepultura”

  1. Laélio Ferreira disse:

    Caro Mário Ivo.

    Evoé!

    A coisa anda mal, aqui na “Esquina”!
    Conheço jornalistas – ditos “culturais”, não toco nem nas cronistas sociais -, físicos, poetas, blogueiros, tradutores, doutores, até, que fazem misérias.
    Teimam, por exemplo, em misturar (mal) o infinitivo do verbo “dar” com o subjuntivo (“dá”) e vice-versa – “uma derrota total”, diria minha avó Celsa.
    E aquele colunista de cultura (Sérgio Vilar) que, há poucos dias, sapecou, “poeticamente” a frase: ” o tempo corre feito cometa e nem consigo alcançar a CALDA”?
    Arre todas as éguas anduluzas deste mundão!
    Abraço,
    Laélio Ferreira

  2. Soraia disse:

    Caro blogueiro,

    Parabéns pela chamada. Bacana! Faço parte da tribo dos deslizes e, no presente, ando ainda mais atrapalhada com os desdobramentos da reforma ortográfica. Acho que seguindo a máxima do círculo das nossas dependencias pós tudo, assistiremos a substituição do Ghost Writer pelo Personal Writer (melhor às claras, né?!).

  3. Laélio Ferreira disse:

    Mário Ivo, meu bom:

    Saravá e ogunhê!

    Pronto! Eu bem que disse.
    Vosmecê já me chamou de “irritadiço” e sou, fique certo – eu e Othoniel!
    Menos de 24 horas depois da minha queixa, Sérgio Vilar tem uma recaída do tamanho de um bonde, desta feita sobre o pênis (saudoso), a paloma, do armorial professor Ariano Suassuna. Veja só, ipsis litteris:

    “Informes, comentários e desculpas
    – De prima, minhas desculpas pelo erro grosseiro, claramente de falta de atenção, nas primeiras linhas do lide da matéria publicada hoje no Diário de Natal. Quis escrever “com toda a pompa”. Saiu – já imaginaram, né? – “com toda a pomba”. Desnecessário explicar que desconheço em grau, gênero e tamanho o membro sexual do escritor Ariano Suassuna. Daqui a pouco publico a matéria neste blog, com a devida correção e vocês entenderão do que falo.”

    Cáspite!

    Arrepiado todo, mando um abraço respeitoso.
    Laélio Ferreira de Melo

  4. Nabuco Pessoa disse:

    O jornalista citado por Laélio dias desses tascou um “…foge à minha ossada…”.
    Juro por Padre Miguelinho, eu li!

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