Era amor

16 de junho de 2010

Rubens Gerchman, Garrincha

Ligou pra mim mal acabou o jogo.

Tinha a voz mezzo rouca, não sei se sono ou álcool. Talvez saudades.

Também eu senti saudades. Mas não éramos os mesmos, saudades de quê, inexistente?

Desligou sem propor nada, sem pedir cois’alguma.

Nem eu. Não ofereci. Não sugeri. Não propus. Não dispus.

Lembro que sorriu, algumas vezes, como para separar uma frase da outra, marcar o tempo, metrificar as rimas, se sonetos falássemos.

Não falamos.

Não durou mais que poucos minutos, se me refiro ainda agora é porque. Por que.

Nem de silêncios fez-se a conversação. Caso mais, de acasos. Fortuitos como os encontros de então.

Não olhei pro chão. Ela não tocou a ponta dos cachos entre o polegar e o indicador.

Não usei sua camisa preferida, nem ela tinha as unhas pintadas de azul turquesa.

Como sei? Eu sei. Sei tudo sobre ela. Ela sabe tudo sobre mim. Só não sabia onde eu estava e, estranho, agora me dou conta que nem eu tenho certeza, agora, de onde ligava.

Sei que sorriu, e que fechou os olhos enquanto sorria, porque ela sempre fechava os olhos quando sorria. Talvez pincelando as unhas de azul turquesa, a coxa contraída, o sexo sem mistério.

Há uma certa intimidade nesse sorrir entre palavras. Ainda mais ditas em voz baixa, quase sussurro, quase inaudível para o resto do mundo senão eu.

É nossa essa cumplicidade latente. De mais ninguém.

Vocês podem duvidar, basta que eu acredite.

Não há ninguém no mundo para quem ela sorri tão docemente quanto para mim. Eu conheço seus silêncios, eu conheço seus soluços, eu conheço a cor da sua pele logo atrás da sua nuca.

Se falamos pouco foi porque pouco tínhamos a dizer.

Por isso desligamos. Sem remorsos.

Não era nem o caso de evitar olhar pra trás. Bastava fechar o telefone. Cruzar as mãos diante dos joelhos, sorrir para os lados, tudo bem? Tudo bem.

Ela deve ter feito o mesmo, mas, se bem recordo, inclinou a testa na almofada grande e os olhos para o teto, já fechados. Se alguém lhe perguntou algo?

Como posso saber?

Mas tenho certeza que, se houve resposta, ela não abriu os olhos e apontou o queixo ainda mais para cima, ensaiando um sorriso.

Porque ninguém.

Ah, o jogo? Empate.

Foi empate, um a um.

5 Já Comentaram para “Era amor”

  1. Laura Diz disse:

    Gostei, faz meu estilo. Bjs Laura

  2. Jarbas Martins disse:

    que jogador mascarado que você é, ó meu cronista preferido e pós-moderno.você sabe das coisas, vá ser garrincha assim, jogar calcio assim no roma. roma X amor, palíndromo tolo. só não sou tolo porque saco tuas catimbas. se não falássemos sonetos…você, o garrincha e o gerchmam falam sonetos, sim… sendo que você é o meu sonetista virtual preferido. meu vinícius de moraes interestelar.

  3. nina rizzi disse:

    fiquei um pouco confusa quanto à autoria, mas é de mario ivo, certo? quanto ao conteúdo, sem confusão: ah, é muito bom, arre, e com portishead? maravilha!

    um beijo.

  4. claudia disse:

    vocês podem duvidar, basta que eu acredite que sempre será amor!

  5. soraia disse:

    bacana: quando você escreve assim tudo parece tão real. bravo!

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