Então, moda

31 de maio de 2010

Les demoiselles d’Avignon, Pablo P – pra quem não sabe, cena de bordel, mil novecentos e sete

Algumas observações dispersas sobre Moda – que está na Moda falar e escrever sobre Moda, o que significa também que daqui a pouco sai de Moda. Pra depois voltar et cætera.

Meninas de short e salto alto parecem putas.

Quanto mais caro o short, quanto mais custoso o sapato, mais putas parecem.

Se o short for branco, então.

Se, além de branco, ostentar uns fios esgarçados – ao menos um único – minha nossa senhora do perpétuo e indispensável socorro: qualquer dona de cabaré em zona portuária será mais digna do que a menina bonitinha, de short curto, sapato alto, fiozinhos delicadamente soltos etc. etc.

Meninos. Meninos endossando camisas pólos com grandes números bordados no peito ou nas mangas parecem gays.

Se os bíceps forem cuidadosamente malhados e os tríceps delineados, então.

Se o menino não for tão menino, beirar os quarenta ou, pior, passar dos cinqüenta, não apenas parecerá gay como merece uma faixa escrito “ridículo” – traspassado no peito; melhor, pior: uma bandana. No meio da testa.

(Em tempo: nenhum problema parecer gay, mas as intenções dos rapazes dos três parágrafos anteriores, penso, são outras.)

Mulheres. Mulheres pretensamente chiques com tatuagens vistosas, hipercoloridas, por mais mínimas que sejam, são tão elegantes quanto um espantalho num campo de corvos.

Se a tatuagem for no tornozelo, então.

E se, além do pezinho, exibir alguma coisa escrita em letras góticas na lombar, meu senhor do Bonfim: ela acaba de sair do Café Photo ou casa semelhante.

Prepare, pois, os recursos. Em notas de R$ 100.

Mulheres (qualquer faixa etária) de vestido balão e manga bufante, cortesia da costureira da esquina, esqueçam a beleza, se acaso a tiverem: deselegantes serão, até o fim dos séculos e pela quarta ou quinta geração.

Se o tecido for cetim ou qualquer pano brilhante, então.

Coisa de feiúra sincera.

Mulheres, meninas etc. calçando botas, especialmente longas: se não estiverem ao menos a uns 15 minutos (ou uns dez quilômetros) do Trópico de Câncer – acima – ou de Capricórnio – abaixo –, podem ter certeza que lhes falta noção do ridículo.

Se estiverem para embarcar para a Europa, especialmente via Lisboa, seja qual for a estação, então.

Mulheres fazendo biquinho, inda mais diante de um espelho: Têm passaporte francês? São casadas com Sarkozy? Moram em Montmartre há pelo menos duas décadas? Se qualquer uma das respostas for negativa, desistam. Então.

Então.

3 Já Comentaram para “Então, moda”

  1. soraia disse:

    Seu post requer um tempo de “degustação”: o universo fashion também comporta coisas bem bacanas como designers criativos e inovadores, inventividades cheias de personalidade e coisa e tal. Também não tenho restrição alguma às tatuagens, até gosto e tenho cá os meus registros. Uma cena observada na ala de embarque de um aeroporto me trouxe de volta ao seu post: um carro grande e importado, um shortinho minúsculo, botas cano curto e uma mulher debruçada sobre a porta do motorista. O que fazia? Imagine o que quiser. Com a massificação e os “cabides de grifes” toda e qualquer criatividade cai no limbo. As chamadas grades de numeração (para calçados e roupas) comportam muitos modelos e tamanhos, mas a maioria se veste igual e, se for mulher, não pode passar do tamanho 40. A diversidade é grande, mas “precisamos ser iguais” para pertencermos ou sermos aceitos, e o igual muitas vezes beira o ridículo. Sim, não posso deixar de registrar: quando passava ao lado do carro grande e importado, a mulher de shortinho, que já não estava debruçada, falava: “paiiiiiiiiiiinho, o senhor vai ficar esperando aqui, né?!” Ri do que havia imaginado.

  2. Mario Ivo disse:

    soraia, vc disse tudo e algo (a) mais – nada contra tatuagens, apenas observei sua vulgarização paradoxalmente em pessoas q não se pretendem vulgares, os q a torna mais ainda. isso pode incluir apocalípticos e integrados, fronteira cada vez mais vaga entre uma coisa e outra. mesmo modo, putas podem ter charme, estilo e elegância. ou não. quanto aos números, prestou atenção como diminuíram tentando passar pro cliente a falsa idéia de não engordaram usando aquela marca? 20 anos depois e bem menos magro do q eu era, acho q uso 3 números a menos, qdo deveria ser o contrário.

  3. soraia disse:

    Mario Ivo, vc tem razão quanto aos números. Por essas e outras, melhor trabalhar com intervalos de números para roupas e calçados ou escolher no “tato”. Por favor, o que são apocalípticos e integrados? São novas ou velhas “tribos” urbanas? Características?
    Seguindo na degustação, agora relembrando uma passagem do filme Amarelo Manga que inclui uma fala mais ou menos assim: “o recato é o lado mais inteligente da perversão.”

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