El Rey

30 de junho de 2010

A cada quatro anos eu aprendo um pouco de futebol para desaprender nos próximos quatro.

A cada quatro anos eu curto um pouco do tal “esporte bretão”, vibro com os passes, lances, jogadas, que não sei bem nominar, arrisco até um “goooool” (com alguns “ooos” a menos), me levanto, ergo os braços, o que é um perigo com um copo na mão etc., como qualquer patriota etc., para descurtir totalmente nos anos seguintes. Etc.

(Só não me peçam pra vestir camisa da seleção nem botar bandeirinha no automóvel. Também não solto rojão.)

Ou seja, é mais fácil eu virar motorista de táxi do que ser técnico de futebol ou viciado em arquibancada e, ou, mesas redondas. O que dá no mesmo. Sou inútil, pois, pras coisas do futebol.

Mas hoje, exatamente hoje, é a copa d’África, o ano é 2010, já sei a diferença de uma vuvuzela para uma jabulani, aprendi – e espero que pra sempre – que a zaga é a defesa, não confundo mais o nome do goleiro da seleção brasileira (Júlio César, verdade?) embora não saiba quem são Nilmar e Neymar e qual dos dois está em campo ou no banco de reservas e qual em casa diante da tevê como qualquer mortal.

Uma coisa é certa: meio que sem querer-querendo, como Chapolin Colorado, me descobri torcendo pela Argentina. E a culpa não foi de nenhuma porteña, me apresso em explicar. A culpa, se culpa há, é de Maradona.

De tanto ouvir falar mal do baixinho, terminei me afeiçoando a ele. É meu apreço a quem desceu aos umbrais do Inferno sem necessariamente usar a escada rolante ou o elevador. Maradona reconheceu a queda e se levantou. Sacudindo o pó, claro. Chato, arrogante, metido, até onde sei fez por onde receber e exibir os adjetivos. Em Nápoles, na Itália, é um santo protetor, quase tão milagreiro quanto San Gennaro. Diz-se que o sangue seco de Gennaro, guardado numa ampola, se liquefaz, uma ou duas vezes ao ano – quando não, alguma merda vai acontecer. Pois, Don Diego Maradona sucumbiu a quase todos exames antidoping e realizou o milagre à sua maneira, derramando o sangue bom na cara dos fãs e o leite mal na cara dos caretas.

Assistir a el pibe rondar o campo como um cão raivoso e cristão é o maior espetáculo desta Copa. O paletó se estreita perigosamente na altura das axilas onde enfia as mãos, se fazendo mais troncudo e atarracado. A barba entre o preto e o branco, o terço envolvendo o punho, o olhar atento, tudo soma para transformar o personagem na reencarnação de um capo mafioso de velha e fina estampa. Cada jogador que é substituído – todos mais altos que o técnico – recebe um ósculo na face seguido de um tapinha nas nádegas. Tudo muito paternal, diga-se. The Godfather, versão 11 prum lado 11 pro outro – e o 23o nas ribeyras da campina, doido pra invadir o gramado e marcar o seu. A FIFA entendeu isso e nenhum técnico tem mais atenção das câmeras do que o argentino, espetáculo ambulante, solitário e único diante da falta de grandes jogadas em campo.

Um pelé.

7 Já Comentaram para “El Rey”

  1. Jarbas Martins disse:

    que gol de letra, mario ivo.

  2. Larissa Gabrielle Araújo disse:

    Coisa feeeeeeeeeeeia mentindo pros seus leitores! huahauahuahauaha Você se descobriu torcedor da Argentina depois do Futebol Espetacular de Messi *suspiros*. ;) d-o-r-e-i.

  3. Gustavo Rocha disse:

    Mario. Parabéns. Conseguiu transmitir o mesmo que eu sinto.

  4. claudia disse:

    e pra que mesmo heim, entender de futebol?! rs ah! num chama o cara de pelé não!

  5. claudia disse:

    já assitiu o documentário sobre Maradona por Kusturica?

  6. Eugênio disse:

    Sei tanto futebol quanto você. Para provar, digo que pensei a mesma coisa. Sem medo de cometer plágio. Até fico contente. Ficaria mais se tivesse escrito igualzinho. rsrsrs

  7. Ana Laura disse:

    Eu já gostava da Argentina, mas me inspirei mais um pouquinho…

Deixe um Comentário