E o diabo criou o Twitter

28 de julho de 2009


Em 1960, Brigitte Bardot tentou o suicídio, dizem que pela segunda vez. Também já estava em seu segundo casamento e já tinha filmado “E Deus criou a mulher”, dirigida pelo primeiro marido, o cineasta Roger Vadim.

Em 1960, Pier Paolo Pasolini, poeta, escritor, crítico literário e cineasta italiano, tinha uma seção na revista Vie Nuove, onde respondia cartas dos leitores – uma delas, na edição de 15 de outubro, indagava sobre a notícia da tentativa de suicídio de BB: “É possível que uma moça assim, que tem tudo na vida, quisesse realmente morrer?”

Pasolini já começa retrucando – “O senhor acredita que Brigitte Bardot ‘tem tudo na vida’? Eu não. Não conheço, é verdade, nem a atriz, nem seu marido, nem Vadim, nem todas as pessoas de sua convivência, e não li sobre esse caso a não ser as manchetes dos jornais.”

E a seguir faz uma análise da operação jornalística tradicional, a qual considera “falsa”, enquanto interessada apenas em pedaços isolados da realidade, aqueles mais vistosos, mais aceitáveis, ou compreensíveis, ao leitor mediano.

Para Pasolini, esse tipo de jornalismo – de jornalista – procura despersonalizar, não a notícia, mas a si mesmo como autor da notícia, para dar voz a um hipotético público, “pensante, mas idiota, normal, mas desumano, ilibado, mas vil”.

(A associação e transposição para os dias de hoje, com o Homer Simpson telespectador do Jornal Nacional, é inevitável.)

E continua, dissecando a relação dos jornais com as celebridades (nada de novo sob o sol: estamos falando de quase meio século atrás): “Eis o que é o sucesso: uma vida mistificada pelos outros, que retorna mistificada, e termina realmente transformando o sujeito desse sucesso”.

“É uma espécie de jogo, cujas regras são aceitas por ambas as partes: de um lado os exploradores – produtores, editores, diretores de revistas de fofocas –, do outro, o explorado: ou seja, a pessoa que por desgraça alcançou o sucesso.”

Pasolini, que passou a vida envolvido em polêmicas, seja pela sua homossexualidade, seja por suas convicções políticas (a direita o odiava, a esquerda não o via com simpatia), acrescenta ainda, quase cúmplice de Bardot: “Sei o que significa ser olhado como um animal exótico, servir de pasto ao ódio (e mais raramente à simpatia), ser continuamente, sistematicamente deturpado, usado brutalmente para ‘fabricar notícias’”.

EU E EU MESMA

Quatro anos depois de tentar tirar a própria vida (da qual “tinha tudo”, segundo a opinião pública de antão), BB vem ao Brasil. Tem um novo namorado, o playboy Bob Zaguri. Andei pescando pelo sebo umas edições da revista Manchete da época, 1964 – em duas delas aparece a atriz. A primeira, de 25 de janeiro, expõe na capa a cabeleira loira e os lábios róseos sob a manchete “BB é nossa”. Na matéria principal a legenda da enorme foto em página dupla lembra uma Caras atual: “Ela vestia um tubinho verde-claro e tinha um cacho de cerejas na gola”. Depois do desembarque no Galeão, BB tinha passado seis dias reclusa, até aparecer na sacada do Copacabana Palace e parar literalmente o trânsito na Avenida Atlântica. O início do texto é sintomático: “E, de súbito, BB começou a aplaudir os jornalistas, como se, em vez de algozes, eles fossem seus companheiros numa enorme farsa.”

Na maior parte das declarações, a loira mostra-se insatisfeita com a própria imagem veiculada pela mídia, consumida pelo público:

“Nada é verdade. [...] É como nos contos, ou melhor, como nos pesadelos; e, às vezes, tenho a impressão de que já não sou a mesma. E, quando tenho certos impulsos, e sou eu, arranjo aborrecimentos.”

Na outra revista, 28 de março, a loira posa para fotos em Búzios, Guanabara: de biquíni ou vestidinho florido ou jeans e camiseta, toca violão, passeia de mãos dadas com o namorado, dá de comer a uma cabra , sorri – mais uma manchete emblemática: “O bem-bom de BB”.

Não sei se vocês prestaram atenção nesta segunda data, 28 de março de 1964. Dali a poucos dias iria se instalar a “ditabranda” (copyright Folha de Sampa). O comício da Central do Brasil já tinha acontecido (e numa sexta-feira, 13). A marcha da família com Deus pela liberdade, também. A Manchete insistia em dizer que a tempestade tinha passado e que o “pânico” causado pela anúncio das reformas de base não tinha fundamento. O “nosso” Murilo Melo Filho chega a profetizar: “Jango vai tomar por decreto uma série de outras medidas que desnortearão seus adversários”.

Sabe-se o quanto, realmente, ficaram desnorteados.

Ainda nesse número, a “conversa com o leitor”, espécie de editorial da Manchete, dividia-se entre as implicações políticas das reformas de base, “que poderão transformar sensivelmente as características conservadoras tradicionais da sociedade brasileira”, e o idílio de BB em Búzios, que parecia “estar encantada pelo nosso país”. E concluía perguntando: “Et pourquoi pas?”

Pois é. Por que não? Um país verdadeiramente encantador.

FARSA

Ah. E, depois desse samba do cronista doido misturando Bardot, Pasolini e João Goulart, onde entra o tal twitter do título?

Aqui mesmo, claro – pra concluir e tirar onda com os tuiteiros de plantão, que acham que reproduzir o que os políticos divulgam em até 140 palavras tem realmente interesse para o leitor. Pode até, também ter. Mas o buraco é mais embaixo e a lógica, mais clara: aos jornalistas devia caber o papel de saber o que, justamente, os políticos não querem revelar – e não aquilo que declaram espontaneamente. Afinal, vez em quando, ou quase sempre, não deveriam os jornalistas ser os algozes das celebridades políticas, em vez de, vergonhosamente, atuar como se fossem seus companheiros numa enorme farsa?

*

PROSA

“Não há reparação possível para Deus nem para os romancistas, nem mesmo para os romancistas ateus.”

Ian McEwan

Reparação

VERSO

“Embora que olhos descrentes não vejam, / da presença de Deus és nossa prova.”

Gilberto Avelino

“Ode ao orvalho”

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