Quem sabe, sabe, e já reconheceu de cara o título aí em cima: é um poema de Dylan Thomas.
Eu, a propósito, não sabia.
Fui conhecer o poema após ter visto, com considerável atraso, Solaris, de Steven Soderbergh.
Lá pras tantas o personagem interpretado por George Clooney – (pequena pausa para as mocinhas e não tão mocinhas suspirarem … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … Pronto. Acho que já deu, né?).
Então, lá pras tantas o personagem interpretado pelo rapaz dos suspiros se encontra com aquela que seria sua futura mulher. No filme, claro (a atriz Natascha McElhone, bonitinha que só ela).
Já tinham se visto antes, no metrô, e trocado olhares risonhos e sorrisos olhos-nos-olhos – enfim, tudo aquilo que antigamente se podia resumir numa única palavra: flirt, instituição tão secular quanto o trottoir, o boudoir e o penhoir.
Conversam de cá, conversam de lá, ele diz algo sobre conter os impulsos, ela questiona se ele é sempre assim, tão contido, ele diz que não, ela sugere a poesia, pra quebrar o gelo, pra não interromperem a conversa – o flirt, pois – que nem conversa engrenada ainda é. Ele, então, cita:
E a morte perderá o seu domínio.
“Hum, Dylan”, reconhece ela de cara, que além de bonita gosta de poesia. “Não é bem um poema sobre a felicidade”, diz.
– Bem, nem você parecia tão feliz quando nos vimos no metrô.
– Eu não estava.
– E hoje à noite?
– É cedo ainda.
Maravilhoso diálogo enquanto aberto e pleno de possibilidades promissoras.
Enfim, o resto da história não é importante neste instante, aqui, agora, deixemos os amantes e seu amor sossegados, e aproveitemos para ler ou reler Dylan, que não é Bob mas Thomas, na tradução de Fernando Guimarães:
E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.
*
Mas, não resisto ao impulso de repetir outro diálogo, entre um homem e uma mulher e o passado dos dois, Johnny Guitar (Sterling Hayden) e Vienna (Joan Crawford), no clássico de Nicholas Ray:
– Quantos homens você esqueceu?
– Tantos quantas mulheres você ainda lembra.
– Não vá embora.
– Eu não me mexi.
– Me diga alguma coisa boa.
– Claro, o que você gostaria de ouvir?
– Mentiras. Me diga que todos esses anos você me esperou. Me diga.
– Todos esses anos esperei você.
– Me diga que você morreria se eu não voltasse.
– Eu morreria se você não voltasse.
– Me diga que você ainda me ama como eu amo você.
– Eu ainda amo você como você me ama.
– Obrigado. Muito obrigado.

Dylab Thomas é citado também por Sean Pean em o Peso da Água. Muito bom filme.