Ah, isso é certo: houve um tempo em que eu sonhava mais. Muito mais. Sonhava dormindo e sonhava acordado. A diferença é que, no primeiro, a gente está tão embebido num torpor medonho que o sonho parece mais real do que a própria realidade. Tipo assim: sonhar acordado é permanecer sóbrio numa festa ébria. Sonhar dormindo é se embriagar de solidão.
Depois, tem uma coisa: os melhores sonhos têm um quê de filme épico. De caçadores da arca perdida. De vale dos dinossauros. De Casablanca. Mas um dos sonhos mais antigos que a memória cada vez mais rarefeita mantém estava mais para os fantasmas se divertem. Eu vinha da praia, na sujeira limpa da água salgada e dos grãos de areia, para tomar a clássica chuveirada a céu aberto e azul anil. Molha de cá, molha de lá, me aparecem voando em rasantes uma multidão de fantasmas… Pera. Uma meia-dúzia, vá lá. Eram fantasmas de desenho animado, na transparência infantil das assombrações. Mas davam um medo danado na criancinha que, já falei, era eu, naquele instante, naquele sonho. Eu estava pra me deixar tomar inteiro pelo terror quando, sei lá de onde e como, me veio em mente que aquilo era um sonho e, sendo um sonho, dele poderia fazer o que me desse na telha. Ou debaixo do chuveiro.
Então, o menino magro, que nunca brigava na rua e que era eu, insisto, adquiriu ares e forças de valente, e saiu socando os fantasmas, um a um. Como consegui esmurrar seres tão fluidos são outros quinhentos. Mas, dali por diante entendi que poderia controlar minimamente os sonhos onde me metia.
Já no sonho de ontem não deu pra fazer nada tão heróico. Eu estava num restaurante panorâmico comentando a paisagem de serras verdejantes com um amigo, num papo sem pé nem cabeça, onde se recomendava o plantio de bananeiras no lugar dos coqueiros que dominavam as encostas. Podia ser um filme de Herzog, mas, não, não era. Não estaria mal na pele de um Klaus Kinski colonial, mas, não, não estava: eu era eu mesmo, sem nenhum adereço a mais.
Lá pras tantas percebemos que à nossa direita, numa espécie de terraço fechado, ficava a cozinha e sua área de serviço. Dois homens matavam um boi.
Podia ser uma vaca, não estou certo. E nem riam, que sei a diferença de um pra outro, macho e fêmea, embora não me lembre qual o castrado – se o touro ou o boi.
Então, fiquemos assim: era um bovino de quatro patas, rabo e chifre. Branco.
E os dois homens estavam esquartejando-o.
Um segurava o bicho enquanto o outro tentava enfiar uma faca pelo pescoço. Antes, furou um olho. Que ficou olhando pra mim. Um vazio enorme e escuro olhando pra mim.

