Dos sertões do carnatal

4 de dezembro de 2009

Deve ser por artes do tinhoso – irônico, sarcástico, mordaz – que me coincide ter em mãos o último lançamento de Paulo Balá justo nos longos instantes em que meia-cidade ou cidade-e-meia se refestela na folia dos corredores e no lusco-fusco relampejante dos camarotes, entre uma mezzo celebridade e milhões, bilhões, trilhões, zilhões – basta! – de vírus tipo Influenza A, subtipo H1N1.

Nada mais distante do corredor da alegria do que este Novas cartas dos Sertões do Seridó, Natal: Edição do autor, 2009, 216 páginas. E, que bom que seja assim.

Paulo Bezerra escreve como quem escreve com letra caprichada, sem ser empedernida, solta de floreios, de rebuscos, de supérfluos. E quase sempre sobre coisas de antão. Ou de antanho, que tanto faz dar na cabeça quanto por baixo do chapéu.

Das suas cartas pululam termos que os mais jovens, se dedicados à compreensão, teriam que cascavilhar nos dicionários: “sopa” e “misto”, por exemplo, referem-se não a gêneros alimentares, mas a meios de transporte – o primeiro nada mais é que o velho ônibus, e o segundo qualquer caminhão que transportava passageiro e carga na mesma boléia.

Não são apenas as palavras que não existem mais que Paulo Bezerra Balá resgata do esquecimento – as pessoas renascem, em pequenas frases, em sucintas descrições, em relatos entre o banal e o fantástico, que valem mais que uma inteira biografia. Tome-se por amostra João Sampaio, que pescava não apenas para a sua panela e para a panela dos outros, mas para povoar as águas dos açudes e também para manter limpa e pura a água dos potes com um rebanhozinho de piabas.

Ou Sebastião Pereira da Silva, conhecido como Sebastião da Viúva por ser filho de Francisca Maria da Conceição, também ela apelidada Chiquinha da Viúva. “Adulto, vaqueiro de fama, recebeu o apelido de Joca em função de um fato que narrava, acontecido na primeira noite de um casamento, mas que não vai contado aqui” – relata Paulo Bezerra.

Em não contar tudo, em não explicar demais, em deixar muito nas entrelinhas, reside um tanto do encantamento da escrita do autor, médico de formação, de profissão, e mais escritor do que muito escrito empolado.

Já em outras cartas, esse pendor pelo conhecimento científico da a mão à ao seu tema preferido – as coisas do sertão – e o texto revela-se mais preciso que quicé, como quando explica os três modos de castração: “Capa-se, pois, de volta, de macete e de faca.” E, depois de explicar, tim tim por tim tim cada um: “Aqui pelo sertão, no entanto, a capação que fica, a mais gabada, é a capação a faca. Capou tá capado.”

Uma boa metáfora, afinal, do jeito de arrumar as palavras, que faz de Paulo Bezerra herdeiro legítimo e honrado de Oswaldo Lamartine de Faria, a quem o livro, mui justamente, é dedicado.

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