Dois filmes de Buñuel

1 de junho de 2010

Não lembro quando, que ando meio esquecido, mas, dia desses, para situar ao menos vagamente a coisa, me veio em mente Luis Buñuel, não um Buñuel qualquer, que aliás nem existe, todo ele muito denso em sua filmografia, quase meia centena de filmes, o primeiro, claro, Un chien andalou, que contava com a parceria insuspeita de Salvador Dalí, o último Cet obscur objet du désir, cujo maior achado, penso eu, é ter duas atrizes (Carole Bouquet e Angela Molina) para a mesma protagonista, a Conchita – pense numa mulher ruim. Eu pensei, aliás, Buñuel pensou, junto com seu inseparável roteirista, Jean-Claude Carrière, e escreveram Esse obscuro objeto do desejo, inspirado, em verdade, num livrinho de Pierre Louys, autor de inumeráveis sacanagens que fariam corar qualquer letrista de axé music ou forró universitário. Em resumo, e nem preciso alertar, estou me dispersando, não pretendia nem falar sobre esse obscuro objet du désir, mas a recordação das maldades de Conchita, Concepcíon, me tiraram do trilho onde pretendia escrever as sempre malfadadas e traçadas linhas. A propósito, o filme – e quem viu há de lembrar – começa literalmente encarrilhado. O protagonista, um rico senhor francês de meia-idade, apenas aboletado na cabine de primeira classe, levanta-se para sacudir um balde d’água numa bella ragazza que parece meia perdida na plataforma da estação. Os colegas de cabine, todos burgueses discretamente charmosos ou não, ficam chocados com o comportamento do aparente cavalheiro – que logo se explica, mais ou menos assim:

– Aquela mulher era a pior das mulheres, a pior sobre a face da terra, o que me consola é que, quando morrer, Deus não a perdoará.

Deus não a perdoará. E, enquanto o trem devora trilhos e paisagens, conta como conheceu a virginal Conchita e de sua obsessão em, pois, desvirginá-la. Cabaço caro, me perdoem a digressão e transgressão: Conchita não era um demônio de saias, mas o inferno em pessoa. Não adianta nem tentar contar o que o filme faz muito melhor – e sem sair dos trilhos – mas não custa lembrar que o mesmo livro de Louys inspirou Josef Von Sternberg a filmar The devil is a woman com Marlene Dietrich – que, com um cigarro entre os dentes fazia mais miséria do que Sharon Stone cruzando as pernas, mas isso é outra história – e atriz.

O fato é que eu nunca me toquei que Carole Bouquet era substituída por Angela Molina e vice-versa, senão quando li o simpático A linguagem secreta do cinema, de Carrière, anos atrás.

O fato é que também nunca esqueci a piscada de olho de um dos interlocutores do trem diante dos arroubos do protagonista:

– Convenhamos: é sempre melhor aguar uma mulher do que matá-la.

O fato (quantos fatos em tão poucas linhas) é que eu pretendia escrever algo sobre outro Buñuel de primeira grandeza: O anjo exterminador. De como na vida sucedem acontecimentos estranhos que nos impedem, por exemplo, de sair de algo sem nenhum empecilho visível e lógico. E de como, de repente, também sem razão ou aviso, saímos. O que é puro Buñuel, aliás.

Um Já Comentou para “Dois filmes de Buñuel”

  1. Jarbas Martins disse:

    Leitura obrigatória para todos os cinéfilos (se é que ainda existem).

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