Do que eu me lembro

16 de maio de 2013

Kyma e Giulia, 2009 circa

Do que eu me lembro?

Da mão da minha mãe buscando, encontrando e apertando a minha, eu, que tinha acabado de ser pai. Uma sina, destino para a vida inteira, não importa o quanto dure essa vida, meio do caminho, fim.

Do que eu me lembro?

Do corpo de sua mãe, se contraindo em dor, a espinha dorsal, a peridural. E você. Não lembro do sangue, nem do cordão umbilical, nem de quaisquer vísceras, qualquer gemido, choro, lamento.

Lágrima.

Do que eu me lembro?

Dos seus olhos. Não ali, ao sair da maternidade, mas dos seus olhos, depois. Já em pé, o paninho branco nas mãos, o corpinho sentinela, vigilante, ao lado dos meus discos. Long plays. O sorriso na rede, adormecido. As bochechas rosadas, balançando.

Do que eu me lembro?

Do inverno europeu, que, de algum modo, assustou você, deixou durante anos, talvez, uma sombra no que e como você deveria falar, se expressar em língua materna ou em língua paterna.

Transoceânica. Pai e Mãe perdidos entre as vagas.

Do que eu me lembro?

De uma tarde – ou talvez fosse noite, ou mesmo manhã, não importa –, o elevador descendo vertiginosamente sete ou nove andares – não importa – e tão lentamente – não importa –, quando sua mão buscou, encontrou e apertou a minha, porque de algum modo inexplicável você sabia que faria tempo pra um reencontro. Por mais que os reencontros, então, já tardassem.

Do que eu me lembro?

Das suas tranças, o corpo magro, o verão tropical, as suas férias no país das maravilhas. Do nosso entendimento, silente, comum. Ainda que o mundo – qualquer mundo – só possa ser construído senão com palavras, nós dois construíamos então um mundo a partir das não palavras, do não dito, do que só podia ser expresso senão lado a lado. Eu e você, lado a lado.

Em silêncio.

O mundo pleno de silêncio, prenhe de palavras.

Do que eu me lembro?

De como você cresceu. E deixou pra trás vísceras, choro, maternidade, mãos – da mãe que encontravam as mãos do pai recém-empossado, da filha que buscavam as mãos do pai prestes a um novo exílio, desterro infinito –, e, para trás o verão tropical, as conchinhas à beira-mar, o silêncio de búzio, zumbido, cóclea, marulhar, por que, pai, as ondas não desligam nunca?

Marejar.

Nunca.

Do que eu me lembro?

De muita e de pouca coisa.

Porque esses vinte e dois anos passaram tão rápidos, tão fáceis e ligeiros, tão pesados e calados, tão intensos e vazios, que outros tantos viveria, ao seu lado, longe de você.

Porque esses vinte e dois anos duraram séculos. E não fazem sentido algum. Nem pra você, nem pra mim.

Porque há vinte e dois anos alcançamos a eternidade, sem nos dar conta que assim viveremos.

Pra sempre.

 

7 Já Comentaram para “Do que eu me lembro”

  1. marinella grosa disse:

    Letto in traduzione italiana di google.
    Il tempo è passato veloce per molti
    di noi ed è una domanda giusta da
    farsi: “Che cosa ricordo?”.

  2. Claudia disse:

    ~amor~

  3. Márcia disse:

    Como esquecer? No dia 16 de maio. Tocante e muito bonito.

  4. bom ler essas coisas que têm a legitimidade de um sentimento profundo. essas coisas que nos fazem eternos.

  5. Giulia disse:


    como sempre
    Emocionante.

    “equanto os outros costroem o mundo atravez palavas:
    nòs costruimos nosso mundo atravez silencios”

    “visto meus oculos escoro
    para nao chorar” (?)

    tat
    Giulia

  6. Que belo! Coincidência ler esta crônica hoje – a dois dias do meu caçula completar 7 anos… Você me fez rememorar meu(s) parto(s) apercebendo-me de algo interessante: de todos os momentos, a única coisa de que não me lembro é exatamente a dor deles… Abraço!

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