Do pranto II

14 de junho de 2010

Joseph Szabo, Hurt, 1972

Segunda vez no ano – este ano – que falo sobre o pranto.

Bebê Chorão, Bezerrinho Desmamado – acusarão as más línguas, impiedosas.

Ô povo ruim. Maus.

Nem ligo, deixo o povo falar, como na letra da canção.

Se me lembrei do pranto foi porque vi essa foto, do senhor Joseph Szabo, que eu conhecia de outras fotos mas não de nome e tal.

Szabo é um dos que intitulam suas imagens. O desta: Hurt. Machucar, magoar, ferir, doer, segundo o Collins. Não encontro o outro dicionário, mais volumoso e, teoricamente, mais completo. Não sei se, metaforicamente, hurt possa associar-se, também, a cry, chorar. Eu prefiro acreditar ou me iludir que sim. Que, em português, ou inglês, hurt, cry, tears, ou, dor, choro, lágrimas, se inter-relacionam, como pedras do dominó.

I hurt myself today/ To see I still feel – canta Johnny Cash. Ou Trent Reznor, para aqueles que preferem o original. Eu ainda prefiro o cover do velho. As palavras mastigadas pelo tempo, cuspidas em meio a ruínas e rugas. Uma voz que se molda a uma garganta sem veludos, desgastada como os nós dos dedos e as bolsas sob os olhos. Quase se ouve a saliva desgrudar na boca de Cash enquanto o piano é martelado sem dó num crescendo que busca estrelas mortas. Junte-se a isso toda a lenda envolvendo o homem de preto, das drogas às prisões, onde aparecia só para cantar para os pares. Seja marginal, seja herói, bem podia ser seu mote.

Parole, parole, parole.

Aonde vai essa moça capturada por Szabo no velho átimo de tempo congelado? É loira, é jovem, é magra, tem nariz e boca pronunciados, olhos invisíveis. O cabelo quase eqüino que chicoteia o ar, a mão que protege, pressiona, consola, os passos que se negam a parar – essa moça vai longe. Desconfio que nunca tenha parado, virou cometa, raio, constelação.

Imagem.

3 Já Comentaram para “Do pranto II”

  1. Alex de Souza disse:

    Trent Reznor também prefere a versão de Cash. Ele é doido?

  2. Larissa Gabrielle disse:

    - mas para quê tanta conversa sobre carvalho e pedras?

  3. Jarbas Martins disse:

    belo prosopoema,mario ivo, sobre a fenomenologia do pranto na imagem.

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