Do contra

18 de agosto de 2009


Podem dizer que sou do contra. E sou. Quando a imensa maioria se perfila ao lado de Lina Vieira e contra Dilma Rousseff, eu começo a achar a segunda mais simpática do que normalmente acharia. Quando – no mesmo movimento e a anos-luz da suposta coincidência – as hostes erguem as mãos ao céu e nelas está escrito, quase ungido e consagrado, o nome de Marina Silva em oposição clara e retumbante à mesma Dilma, novamente a pulga atrás da minha orelha começa a dar saltos-mortais e se lança de um trapézio a outro como se subitamente um inteiro circo de pulgas se armasse ali, próximo ao lóbulo e ao pavilhão auricular. E logo passo a encarar a moça simples e recatada das brenhas amazônicas com uma desconfiança inusitada. Também, quando a gente, a plebe, o povo e as elites se põem a demonizar o Bispo Edir Macedo e sua Record, estimulados e quase tangidos pela Rede Globo de Televisão, eu me pergunto, e daí? Onde o sujo? E o mal-lavado, o roto, o esfarrapado? Por fim, quando a mídia da minha terra se une em uníssono em torno ao músico Tico da Costa, em prol da tal solidariedade, só me resta lembrar a nossa condição de mineiros, mesmo tão longe e distantes – e não falo apenas de geografia – das Geraes, das Alterosas, do Clube da Esquina.

Fazer o quê? Eu desconfio realmente das coisas unânimes. Desconfio, inclusive, dessa mania de citar Nelson Rodrigues em cada ocasião em que o substantivo concordante, conforme, consonante, uniforme, se anuncia, qual letreiro luminoso ou nas letras garrafais com as quais se prescrevem as manchetes pretensamente escandalosas.

Ou seja, eu desconfio até de mim mesmo, coisa que recomendo piamente também a vocês.

Senão, vejamos: Danuza Leão – que até escreve direitinho, aliás, tem estilo, realmente – andou dizendo que tem medo de Dilma Rousseff. Não é preciso relembrar a figura patética da atriz Regina Duarte naquela interpretação dúbia de confessionário paroquial quando disse a mesma coisa sobre o Sapo Barbudo, o tinhoso, o belzebu, o cramunhão. E quando alguém como Danuza Leão se põe a vociferar, ainda que elegantemente, contra a candidata do retirante nordestino, é porque a conversa saiu dos gabinetes para a sala de estar da classe média.

A oposição a Lula encontra-se tão histérica (e é tão ridícula) que vai buscar paradoxalmente em alguém símile a ele, a tábua de salvação que os livre do pavor de continuarem afastados do poder principal nos próximos quatro, cinco anos.

Ora, ora, ora. Marina Silva – e não falo de estereótipos visuais, tão somente – está muito mais próxima à imagem “negativa” do presidente, construída e desconstruída há anos pelos adversários, do que a própria Dilma Rousseff . Reparem na ex-ministra, a pele parda, os cabelos sem os artifícios e as luzes do salão de beleza, a sobriedade beirando a pobreza no trajar, a falta de empáfia dos acostumados a usar o elevador de serviço. Reparem, agora, na senhora mãe do PAC: La Rousseff se aproxima muito mais de um Fernando Henrique Cardoso. Ou, mesmo, de uma Lina Vieira. (E aqui, talvez, eu me refira mais ao visual casual political fashion.)

É claro que a coisa toda nem mesmo pode ser considerada paradoxal, enquanto muito bem pensada: os herdeiros do coronelismo (que fingem negar o Coronel Sarney bem mais que as três prosaicas vezes do Iscariotes) já perceberam que a Senzala gostou de se ver no poder. E agora que sentiram seu gosto vai ficar difícil largar o osso, incluindo aquele mais apetitoso e com mais restos de carne grudado nele, o do Bolsa Família (que nada mais é que a versão moderna e ampliada da cesta básica, da dentadura, do óculos de grau, da camiseta de propaganda eleitoreira – só que garantido, sem as oscilações de humor dos senhores de engenho).

Mesmo caso das Poderosas Organizações Globo, templo de um novo-velho evangelho, bem mais antigo e arcaico que a Record e a Universal do Bispo Macedo. Também em muito pouco diferem as rivais do éter. Especialmente se levarmos em conta que é o mesmo mercado de ilusões. E de iludidos.

Quanto à solidariedade que tradicionalmente acompanha o câncer, não é interessante que nem isso concedem à Dona Dilma? Como se, ao se posicionar como possível vitoriosa em 2010, fosse vista como uma ameaça muito mais insidiosa e maldita do que a própria doença silenciosa. 

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PROSA

“Ser apenas dor, como simplificaria as coisas! Ser todo dolente!”

Samuel Beckett

Primeiro Amor

VERSO

“– Nós que um dia talvez morramos dizemos o homem imortal no foco do instante.”

Saint-John Perse

“Marcas marinhas”

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