Do bom e do mau atendimento

7 de fevereiro de 2011

Conversa vai, conversa vem, falavámos sobre atendimento: eu precisava de novos exames de sangue, fezes, urina, e meu irmão perguntou em qual laboratório.

“O de sempre”, respondi. E era o mesmo aonde ele costumava ir.

Perto de casa, cinco minutos a pé, recomendado pelos médicos, tal.

“Não vou mais lá”, me disse. E explicou: um dia, pra ser simpático, quebrar o gelo, puxou conversa com a atendente, seringa na mão, o braço no garrote, a veia já saltando: “Vai doer não, né?!” E a moça, olhar seco, gélido, fuzilador: “Claro que vai, toda picada dói”.

Massa, como dizem por aí.

Beleza.

E continuou: precisavam ainda calcular umas taxas e queriam saber seu peso. “Infelizmente, não sei”, explicou, todo educado. “Ah, então tem que pesar”. E nada de encontrar uma balança. Terminou, meu irmão, em uma imensa sala, quase vazia se não fosse pelo corpo estendido de outra atendente, sono profundo. “Fulana, essa balança não funciona, não?” E Fulana, se revirando enfastiada no leito: “Tá quebrada, pegue aquela outra ali”. E vai então meu irmão, desanimado, subir na balança, quando lê o aviso: “ATENÇÃO! Balança infantil”.

“Moça, aqui está escrito, que é só para crianças”.

“Tem nada não, pode subir”.

“E assim, por essas e outras, desisti”, explicou, “agora vou em tal lugar, tudo muito moderno, limpo, eficiente, as atendentes todas educadas”.

Pois, assim, fui, confiante na recomendação. Cheguei todo, não vou dizer animado, mas preparado, potinhos de urina, um, de fezes, outro, ambos dentro de uma sacolinha para preservar aos olhos alheios o desagradável espetáculo.

O prédio era, sim, uma maravilha por fora, a fachada toda no granito e no blindex, mas, por dentro, era o caos, clima assim, rodoviária. Pior: o ar condicionado, mesmo enorme, não dava conta do espaço empanturrado de idosos, adultos, crianças, bebês chorando – porque se são bebês, claro, têm de chorar.

Mais: nenhuma cadeira desocupada, o único lugar vago junto ao blindex da porta, onde o sol, impiedoso, disparava seus raios sem descanso. “Ih, vai dar em merda”, pensei, não com meus botões mas com os dois potinhos escondidos no fundo da sacola, “isso aqui vai começar a feder”.

Não sei se começou – estava resfriado, nariz entupido e tal – mas pra resumir a história, saí de lá uma hora depois que entrei, antes tendo tido o cuidado de ensaiar um sorrisinho com a recepcionista diante da pergunta sobre o horário da última alimentação (“estou quase desmaiando de fome”), que me devolveu uma expressão genuinamente indiferente, e a moça da agulha, essa sim, teve o cuidado de perguntar “tá doendo?”

Àquela hora, só me veio de dizer: “Não”.

5 Já Comentaram para “Do bom e do mau atendimento”

  1. Faço exames aqui na minha rua, av. Miguel Castro, no Laboratório Alexander Fleming. Sempre sou muito bem atendida. Fica a propaganda positiva.

  2. Carito disse:

    Rapaz, não sei o que aconteceu… Mas realmente tenho ido sempre e sempre tenho sido muito bem atendido como lhe falei, depois que mudei…

    Pelo menos rendeu uma boa crônica…

    E agora? Vou ter que dar o braço a torcer?

  3. soraia disse:

    o segredo é ir fora dos horários de todos: em quase 4 anos de observação descobri que ou se chega às 6 da manhã ou depois das 11:00h.

  4. carlos de souza disse:

    a última vez que fui a um laboratório desses fiquei com um hematoma no braço. a moça demorou a achar veia. aí veio outra e achou rapidinho. fiquei agradecido.

  5. Paulo Mamão disse:

    Já que o assunto são fezes, urinas e outras escatologias: quase me mijei de rir.

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