Diva e Céu

8 de setembro de 2009


Não se enganem os incautos e os malévolos: esse canto de página, essa meia página literalmente inferior, não rende nem dobrões, nem ducados, nem fama, nem anonimato. Um piso salarial ao fim do mês, é verdade, um outro convite, verdade também, alguns elogios, algumas críticas veladas, e muitas, incontáveis satisfações.

Mas, verdade-verdadeira, mui poucos regalos. No senso de presente, benesse, brinde, dádiva, mimo.

Semana passada foram dois – dos melhores: o último lançamento da homenageada poeta Diva Cunha; o último lançamento da cantora Céu.

O livro de Diva

O nome Diva. Vai saber por que Waldemiro da Fonseca Cunha e Maria Dalva Soares Cunha escolheram batizar a filha, nascida em 1947, 62 anos atrás, com esse nome de deusa, divindade, deidade, prima-dona, musa. Pouco importa. Na mesma semana em que foi homenageada pelo 13o Seminário Nacional e 4o Seminário Internacional Mulher e Literatura, Diva Cunha se transfigura em todos esses sinônimos e recebe, por assim dizer, também justa e bela homenagem ao ver publicado “Resina”, espécie de obra poética completa que reúne seus três livros publicados (“Canto de página”, 1986, “A palavra estampada”, 1993, e “Coração de lata”, 1996) mais o inédito “Resina” – resina esta que, não acaso, já nasce como parte inseparável de uma antologia, e que, não à toa também, ocupa quase metade do belíssimo volume, projeto gráfico, capa, produção gráfica e editorial da Editora Una.

“Mulher matutina / nasço com o sol / estremeço nos verdes // não me colham a tarde / que resina endureço” – revela-se no poema de onde se colheu o título, do quarto livro de poemas e primeira antologia, ansiosa de não esperar crepúsculos (“no futuro serei / o que não sei”), consciente de que, hoje, madura, é poeta em tempo integral (“O ofício me chama / às cinco horas da manhã / sou a pastora da aurora / levo no bolso / a chave do dia”).

E eu, que tanto que procurei evitar o lugar-comum da palavra, pespego entre as linhas do parágrafo anterior esse “madura” que tão pouco significa no fim das contas – embora em seus versos mais antigos se compare à fruta de vez, divida-se entre amadurecer e amanhecer, radicaliza-se entre amadurecer e apodrecer.

Embora, dezesseis anos atrás, a poeta assumia outra lida: “Pela manhã a pressa / livrou-me da poesia”. E, na mesma época: “Que despropósito, / uma agenda cheia de pássaros / numa manhã de obrigações!”

Desde o primeiro livro que o cotidiano é tema recorrente de sua poética – junto a outros temas que poderiam receber o rótulo, guarda-chuva, sombrinha, pois, de “feminino”: a carne, o sexo, o sangue, o homem, a solidão, os versos.

Em 2009: “O corpo contém / o pequeno mundo de cada dia”.

Em 1996: “Faço poemas / ou bifes à milanesa”.

Em 1986: “Nem folgas / nem férias / a casa / requer urgentes / cuidados / portas por lavar / roupas / camas por fazer / pratos / facas por lavar / cortam / a verde carne / da mulher diária”.

Diária, cotidiana e “da pá virada / da vida torta”, a mulher que se revelava “um bicho / com outro bicho / atrás de mim”, brinca com seus vícios ao mesmo tempo em que desvela sua concisão poética: “Para essa mania de versos / água e sabão // que tudo mais é excesso / dispersão”.

Se a lida diária mudou o foco das obrigações, a “dona de casa que só pensa em versos” e que assumia “fazer versos é o melhor / exercício para o meu cio”, amadurece sexysagenária – com o perdão do trocadilho infame. E ainda se confessa: “Deus me mantém / viva e ocupada / com as coisas da carne”.

E com as coisas dos versos – “Tenho mestres, tutores”, afirma, em “Angústia da influência”. E noutro poema: “Sou todos / os poetas que li” – e João Cabral, Cecília Meireles, Orides Fontela, Murilo Mendes, Manuel Bandeira, Carlos Drummond aparecem, no corpo do poema ou na dedicatória explícita.

“Quem me freqüenta? / quem me modela? / quem tantas vezes me passa a limpo sem pensar?” – pergunta, nem tão inutilmente, que perguntar muitas vezes é melhor que responder.

“Resina” traz as respostas.

Procurem nas boas casas do ramo, folheiem com carinho, leiam com vagar – “Resina” é também objeto tátil e estético, daqueles livros que você abre, fecha, escorre os dedos pela capa, alisa a contracapa, mede, pesa, admira com as mãos, curte possuir.

O disco de Céu

O segundo presente-divulgação é o segundo CD da cantora Céu. Nem vou me chatear ter recebido (via Mulatinho, da Mixmidia) o belo estojo da Natura apenas uma semana depois de eu ter comprado “Vagarosa” na Rio Center: é claro que vou dar minha cópia pra alguém que merece.

Mas digo isso também pra me livrar de qualquer suspeita de tendência positiva – eu já me interessava pela cantora antes do trabalho de marketing da Natura, que patrocina a turnê de “Vagarosa” por 12 cidades brasileiras (e já tinha me chateado aqui porque toca em Recife dia 18, pula pra Fortaleza dia 19, pula de novo pra João Pessoa dia 24, e nos ignora solenemente). Sobre isso eu falo outro dia.

PROSA

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”

Tolstói

Anna Kariênina

VERSO

“ausência / da costela ímpar que / me falta / encontra meu corpo / em ti.”

Theo G. Alves

“o primeiro corpo…”

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