Diário da rainha

25 de novembro de 2010

Entre maio de 2000 e dezembro de 2001, a senhora Elizabeth Alexandra Mary, então com 74 anos, desceu literalmente do trono para uma série de sessões com o senhor Lucian Freud, quatro anos mais velho.

As sessões, apresso-me em esclarecer, foram de pintura, muito embora, sim, o sobrenome do pintor não seja uma simples coincidência: Lucian é neto do velho Sigmund e quase tão famoso quanto o vovô. Se um é considerado o pai da psicanálise, o outro é tido, hoje, como o maior pintor britânico vivo.

Já Elizabeth Alexandra Mary não é uma senhorinha comum, rainha que é do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e de mais um monte de lugares exóticos, o que inclui a Papua-Nova Guiné e as Ilhas Salomão.

O encontro dos dois também carrega um quê de exotismo inusitado.

Pra começo de conversa, a pintura de Lucian Freud, é, para dizer o mínimo e respeitando o gosto banal, um tanto quanto indigesta.

A maior parte de sua obra são retratos de nus, mas Freud, neto, pinta a nudez como se flanasse num açougue e não – como seria mais óbvio de esperar – numa sexy shop ou nos bastidores de um filme pornô soft.

As mulheres de Freud são imperfeitas. Os seios flácidos, o abdômen volumoso, as coxas adiposas. Os homens de Freud têm pau. E saco escrotal. A raça humana, enfim, como retratada pelo artista, não passa daquilo que é: um amontoado de carne, músculos, gordura, ossos.

Os retratados quase sempre estão em pose de sono, largados sobre um leito desarrumado, as pregas dos lençóis confundindo-se com as rugas e imperfeições do corpo e alma humanos. Os quartos onde dormem são tão esquálidos quanto seus habitantes.

O mesmo despudor da nudez explícita se repete nos personagens vestidos. Lucian Freud não faz concessões. É cruel e seco com a natureza humana, seu tema principal. Sebastian Smee publicou um livrinho sobre o pintor com um subtítulo elucidativo: “Observar o animal”. Os homens e mulheres de Freud – as crianças também – são observados e capturados sem nenhum glamour ou sinais de superioridade de quem frequenta o topo da cadeia alimentar. Se há um quê de bicho no bicho-homem, esse quê é o centro da obra do pintor, que explora sem cerimônia ou piedade essa condição.

Daí a surpresa quando a Sua Majestade, a rainha por excelência, aceitou ser retratada pelo açougueiro.

Desconheço os detalhes da negociação, mas a foto de David Dawson, assistente e amigo de Freud, retratando uma das sessões, fala por si só.

*

O pintor aparece de costas e vê-se que ao menos está vestido formalmente para a ocasião.

Mas não olha para sua retratada, aliás, parece ignorá-la e mais preocupado com os pincéis, as tintas e, talvez, a paleta, enquanto a rainha busca o olhar e a aprovação do pintor e se mostra discretamente apreensiva, ansiosa e, ao mesmo tempo, paciente e disposta a colaborar.

Embora sua alteza tenha sido colocada sobre um plano ligeiramente elevado, aparece mais baixa do que o artista, ele em pé, ela sentada. Há um quê de humildade no modo como entrelaça as mãos, como se contasse os dedos. Uma das mulheres mais poderosas do mundo aguarda que um plebeu se apodere dela, sobre ela.

Pesa ainda o ambiente, um tanto esquálido e bastante improvisado. A parede é nua, branca, sem ornamentos. Uma rachadura ou um fio elétrico atravessa o fundo, as sombras parecem revelar, mais que esconder, um depósito de coisas velhas, trastes, parcimonioso e discreto até em sua desarrumação. Um olhar mais atento vai perceber a alça da bolsa real, apoiada no chão, esperando que o braço da sua dona seja livre para novamente e elegantemente nele se pendurar.

O mais surpreendente de todo o conjunto é o centro da foto, onde um terceiro elemento principal une e divide os outros dois, o pintor e sua rainha: é um enorme cavalete de madeira, onde se apóia a grande obra, motivo de toda essa encenação e teatro, uma tela de 23,5 por 15,2 centímetros.

E eu só posso imaginar que homem que ousa pintar nessas dimensões mínimas a rainha do Reino Unido e alhures é não apenas muito corajoso: Lucian Freud é acima de tudo poderoso.

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