Destempero

9 de julho de 2010

The fallen angels explores the landscape of hell, Gustave Doré

Vez em quando a gente precisa treinar umas ruindades. Pra não perder a prática. Pra não sucumbir e se afogar na poça rasa do romantismo, que o mundo é um poço sem fundo de rancor e ódio, som e fúria. Um Oceano, a bem da verdade. Muito pouco Pacífico, muito mais Atlântico.

Tão vendo? Basta um pé pro sujeito cair no discurso ramerrento e poético, que o amor & outras migalhas já vêm logo querendo a mão, o braço, os anéis, os dedos, não necessariamente nesta ordem.

Que mané, Atlântico e Pacífico, que nada, bebês. Fodam-se as metáforas e as figurinhas de linguagem. Tá com medo, por que veio? Tá com medo, quem mandou se meter a escrever?

Também, claro, não precisa ser mau o bastante pra desossar a princesa encantada e encher o bucho dos perros, mas tampouco basta deixar a barba crescer, dois, três, dias, ou destapar a boca quando falar putaquepariu, pra parecer bad boy feito um Kaká de meia-tigela – o que, convenhamos, é redundância.

Então, combinemos: Lautréamont só na prateleira ou refestelado na poltrona à meia-luz, harmonizado (pra usar o linguajar erudito dos connaisseurs) com um absinto D.O.C. Nem tanto ao Bruno nem tanto ao cordeiro de deus nos gramados do mundo. Um Felipe Melo tá de bom tamanho. Quem nunca enfiou – ou teve vontade de – o pé na canela alheia, pois?

e

Todo mundo com cara de paisagem, aposto. Só se ouve o coaxar dos grilos, digo, o cantar. Claro que ninguém assume. Ninguém quer ser ruim de verdade, embora o seja, de verdade também. Em maior ou menor grau, de tirar catota do nariz a desejar e augurar que o outro morra.

Eu mesmo, for example, dia desses fui tomado de assalto por uma frase mais ou menos assim:

Se inventarem coisa melhor do que mulher, não me avisem: sou antigo e fiel às tradições.

É um pensamento que, tenho certeza, passa pela cabeça de 11 entre 10 homens – me refiro àqueles que gostam, efetivamente (tudo bem: afetivamente, também) de mulher.

Mas aí tem essa coisa da coisa. Coisa feia comparar mulher com uma coisa, né não? Além do mais fica essa impressão de pouco confiável e fiel, e excessivamente volúvel.

Pois é. Vai saber quem é o autor da frase. Da minha parte, digo e reafirmo: só pode ter sido o anjozinho ruim que me soprou-a no ouvido. Ah, moleque.

3 Já Comentaram para “Destempero”

  1. Jarbas Martins disse:

    ninguém mais apropriado pra falar de inferninhos celestes do que você, meu caro mario ivo. e justo neste teu locus nada amoenus (corrija meu latim, professor itamar de souza). destempero é tua crônica ilustrada por gustave doré. elenco mais sublime: mario ivo, dante alighieri e gustavo doré. destempero é quando o nosso anjo da guarda decide virar pelo avesso. e arregaça.

  2. claudia disse:

    “… pouco confiável e fiel, e excessivamente volúvel” ? huahuahuahuah! como assim? isso parece “clara manhã de quinta à noite! a maledicência é medida de/para humanidade!

  3. soraia disse:

    Não gosto e desconfio das caras de paisagem. Elas me fazem lembrar das placas tectônicas que habitam os baixos do Pacífico e, não raro, causam grandes estragos.

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