De volta pra casa

28 de julho de 2010

The sheltering sky, Bertolucci, 1990

Eu volto sempre mais estranha do que fui.

Não carece informar a autoria da frase acima. Fiquemos só com a própria, emblemática, por dizer.

É de uma dama, isso é seguro. Se fosse varão, o autor, diria mais estranho do que fui. E mais feia, também, seria a frase. Leiam:

Eu volto sempre mais estranho do que fui.

Sentiram a perda? As perdas? Falta élan, simpatia, charme, desassossego. Um macho ir e voltar estranho é de uma banalidade comum. A estranheza, nos homens, é antipática. Nada a fazer, nem a ver.

Agora, releiam:

Eu volto sempre mais estranha do que fui.

Sentiram o clima? O mistério? As gotas de Chanel No 5 evaporando, sutis, na curvinha macia do pescoço?

Pois.

Isso.

Uma mulher, quando volta mais estranha do que partiu, é porque muito lhe sucedeu entre o chegar ao destino e o retornar às origens. Encanto. Mistério. Prazer. Dor. Tipo: uma viagem a Xangai. Tipo: uma aventura na Martinica. Tipo: uma fazenda africana.

Eu tive uma fazenda na África, aos pés dos montes Ngong.

Karen Blixen, A fazenda africana. Acima. Marguerite Duras, O amante. Abaixo.

Muito cedo em minha vida ficou tarde demais.

De propósito, não citei o Mekong na frase anterior – o exotismo não está no destino, mas na viagem, pois, interior. Vá lá. À flor da pele. Agora, sem mistério, nem distinção de gênero, quando volta-se, volta-se para aonde? Para casa. Sem mistério. Sem distinção de gênero. Mesmo jarro sobre o aparador. Mesmo canal na tevê, mesma disposição dos móveis na sala, mesma dobra do lençol na larga cama, quarto de dormir.

Pior ainda é quando se volta para ninguém. Casa vazia, exceção dos fantasmas.

Daí outro dia ter percebido uma obviedade: o ruim de morar sozinho é que não adianta nem ir à esquina comprar cigarros e nunca mais voltar.

Ninguém daria conta da nossa ausência.

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