De chuvas e temporais

10 de janeiro de 2012

Saint, Brando, On the waterfront, 1954

Não choveu por seis dias, na canção de Lloyd Cole and The Commotions. Jodie usou um chapéu, então. Parecia Eva Marie Saint em On the waterfront, Sindicato de ladrões, Elia Kazan, 1954. Lá pras tantas, Edie Doyle, ou seja Marie Saint, diz pra Marlon Brando, isto é, Terry Malloy: “Stay away from me.” Na verdade ela diz: “I want you to stay away from me.” E o moço: “I want you to stay it to me.” E ela – não Jodie, mas alguém a quem Jodie parece –, enfática: “Eu não disse que não te amo, mas que stay away from me.”

Eu misturo, não à toa, as línguas.

Há diferenças no que se diz numa língua, e o que se diz noutra língua.

Há diferenças no que se escreve, e no que se diz.

Há diferenças, acreditem, no que se fala, com a voz, e o que se anuncia, com o corpo.

Um beijo, um olhar, uma carícia de pele, o toque do meu dedo em teu antebraço, o modo como minha coxa cruza a tua coxa e nos recolhe num novo ser, sem começo, meio, fim.

Há diferenças, e eu aposto todas fichas nessa roleta, entre desejar e não desejar. Ou, entre desejar ardentemente e apenas querer.

Ou, entre dizer Não te amo e Fique longe de mim.

Se não for pra atravessar o deserto por que diabos eu desejaria ficar com você? Se não sou capaz, se não me permito cruzar vales e desfiladeiros, pontes queimadas e mares tempestuosos, infernos ardentes, paraísos medonhos, de que vale o meu desejo de atravessar a minha coxa sobre a tua coxa e nos perder nesse começo, meio, fim, não necessariamente nessa ordem?

Há diferenças entre apostar todas as fichas e arriscar uma merreca qualquer. Há diferenças entre debruçar todo o corpo sobre o abismo por cima da murada ou apenas espiar, sobrolho pensativo.

À distância, não alcanço teu corpo, tua coxa se perde em meio ao temporal, náufragos distantes, nos perdemos, nos distanciamos.

E a estrada se bifurca, em uma, duas, que se bifurcarão em mais duas, quatro, seis, mil, até que o mundo se torna tão grande como quando não nos conhecíamos. Como quando não chovia por seis longos, infinitos dias.

3 Já Comentaram para “De chuvas e temporais”

  1. carlos de souza disse:

    reiou cabra, que texto belíssimo, man!!!!

  2. finder disse:

    reading you I get on my knees. sim, um texto belíssimo.
    as usual.
    quando escreve aqui.

  3. Sophia disse:

    Mário Ivo,

    Há um toque diferente neste seu texto… Senti uma certa falta daquelas frases de palavras únicas tão características suas. Aqui o texto vai fluindo, fluindo… A-MEI!
    Vcc escreve muito bem.
    Sua fã.

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