Das trevas

10 de novembro de 2010

Robert Mapplethorpe, Calla lily, 1988

Vez em quando também é preciso deixar um tanto de escuridão entrar em sua casa. Evitar que o acender das luzes se intrometa na paleta do céu berrando encarnados, laranjas, ocres e, por fim, breu, último respiro, suspiro da tarde, que se vai, sem volta. Jamais.

Vez em quando é também preciso deixar um tanto de escuridão entrar em sua casa. E observar como a noite invade e preenche os quatro cantos da sala, da cozinha, do corredor, quarto de dormir. Como os móveis se vestem de luto, veludo infinito de uma cor mais viva que as demais, ébano pulsante à espera de uma próxima letargia, que virá, vitoriosa, em ciclos, de horas, dias, séculos. Eterna.

Vez em quando é preciso também deixar um tanto de escuridão entrar em sua casa, apenas pra perceber que, sim, a escuridão também alumia. E que a vida tem outro sentido distante do sol e da luz elétrica e da lua cheia, minguante, nova ou quarto crescente ou outra fase ainda não criada pelo olhar do homem, que a lua não é nada senão invenção e mágica humanas. (E, houve um tempo, sim, e era o tempo do poeta da Rua da Palha, hoje Voluntários da Pátria, que, eu me lembro, sim, a luz elétrica vinha com a lua cheia.) Sempre.

Vez em quando, pois, é preciso deixar um tanto de escuridão entrar em sua casa. E observar com olhos vivos antes que a terra e seus sete (houve um tempo, sim, eram sete, hoje não sei mais) palmos os devore, vingança de Saturno (ou seria Acteão? hoje, não, não sei mais), e observar – dizia eu, que tropeço na escuridão, está tudo tão coberto de negrume – e observar o silêncio entrar pela janela escâncara, e de mãos dadas com a noite em seu alvorecer derramar-se sobre tudo o mais, inundar os chãos, escorrer por sob as portas, espojar-se enfim sobre o tapete marroquino. Mudo.

Vez em quando – e será esta a derradeira vez que repito – é preciso, é necessário, é imperativo, deixar um tanto de escuridão entrar em sua casa. Para que os detalhes cresçam, para que os relógios se abram, para que o bronze do pêndulo inflame. Em chamas.

Vez em quando – ai, ai, não sou de cumprir promessas – é preciso, é saudável, é auspicioso, deixar um tanto de escuridão entrar em sua casa. Para que o corpo nu brilhe ainda mais e ilumine, ainda mais, esse sonho recorrente que a luz elétrica não é capaz de acalentar. Em tempo algum.

8 Já Comentaram para “Das trevas”

  1. marize castro disse:

    q belo texto, mario! a ilustração do mapplethorpe é perfeita para acompanhar o brilho do seu texto. escreva mais assim: com a alma.
    bj.
    marize

  2. Laélio Ferreira disse:

    Supimpa – “trabáio limpo” !

  3. MEmilia Wanderley disse:

    lindo, lindo,lindo…
    te-amo-tes
    bj. memilia

  4. soraia disse:

    atrevimento de leitora: eu ficaria até onde “a escuridão também alumia”.

  5. Jarbas Martins disse:

    foi meio difícil chegar até mapplethorpe, caro mario ivo. preferi ficar, ao lado de irani, em nossa varanda de nuvens, eu apreciando e rindo, tão íntimos, da leitura dela, ignorante e cega, quando o texto se refere à qualquer tipo de arte. seus dedos longos de unhas, vencendo a luminosidade do monitor, indagavam-me a todo o instante o vermelho berrante, ou o bronze de um pêndulo, por que tanto ocre, meu deus, e vez em quando. e irani rindo de tudo aquilo, de mim, de estarmos tão à vontade com a vida, do vento que parecia nos desaprovar, pois líamos em um décimo nono andar, tão distante da planície entediante de um domingo de programas de televisão, e futebol, e shopping center. e teu texto tão estranho, neoimpressionista, talvez, e belo, e tão avesso à minha idade, e, acompanhando-o, comentários lindos como os de marize e maria emília.e irani, a minha penélope real.

  6. antonia maria de araujo fernandes disse:

    Texto maravilhoso. Gosto de andar na minha casa na escuridão, dando-me o prazer de novas descobertas e sem riscos de perder-me: basta orientar-se pelo perfume das flores.

  7. Jarbas Martins disse:

    e se você não fosse, antonia maria, o parônimo do cronista pernambucano, que me abriu os olhos e o coração para a literatura e para o mundo, e não fosse você uma leitora das crônicas de mario ivo, como eu,
    e não estaríamos aqui compartilhando esse amargo gosto de treva, essa busca tátil do mistério, da alma noturna boiando em nossos dedos,como num poema de zila mamede, ou carito, poetas sabidamente cosmogônicos.eu não estaria aqui, mencionando o teu nome, lançado em vão à blogosfera, você tão virtual, sem um rosto, tão diferente de irani, a minha real penélope. e aqui chegamos ao cerne da bela crônica de mario ivo, ao coração das trevas, onde ele solitariamente pulsa. como de resto, você, eu, irani e outras pessoas que amo e admiro, tão distantes no tempo e no espaço, como maria emília e marize.

  8. antonia maria de araujo fernandes disse:

    Prezado Jarbas, gostei de sua referencia ao inesquecível Antonio Maria, onde sob o seu retrato em um bar boêmio do Recife Antigo nos vive de dezembro de 2003, um belo, belíssimo momento de paixão; de um amor que se foi, mas que sempre estar a voltar por meio da WEB, de poemas, canções, fotos, lembranças (como você mesmo refere-se tão distante no tempo e no espaço, mas a alegrar meu coração.
    Quanto ao amargo gosto de treva, essa não partilho com você. Talvez minha condição de sertaneja, faz-me considero a noite e suas trevas momentos de doces mistérios, de muitas descobertas, de doçura, deslumbramentos, por meio dos chocalhos do gado a buscar seus recantos, os galos a cantar, e dos primeiros passariar ao chegar as madrugadas, de nossos raros bentevís, canários, (quando o tempo da maldade não tinha chegado), dos téteus a abandonar seus pousios e buscar as várzeas para o alimentação, para a construção de seus ninhos. Acho que quem foi criança no sertão, foi mais feliz que as crianças urbanas, poís imerso na inocencia pelo aprender com a sabedoria dos animais ao construir seus ninhos em lugares seguros, o que somente a ecologia da conservação explica; o cuidado com seus filhotes, sua astucia em proteger-se dos carcarás, das temiveis cobras; o despertar da ternura ao acompanhar a floração da nossas belas arvores, as caibeiras, os paus d´arco, os jatobás, os mofumbos, as oiticicas a frutificar, a beleza das flores dos cardeiras e doçura de seis frutos, dos xiques-xiques, a força a coragem de nossos vaqueiros/galãs com seus uniformes de batanha para enfrentar valentemente as matas impietosas, o touro fujão encondido nos sopes das serras; dos cardeiros e as tantas suprezas que encontravamos em nossas expedições pelas cercados, nos roçados, os banhos nos rios e açudes, protegidos pelo anjo da guarda, muitas vezes sem o conhecimento dos pais…. tem coisa mais doce que o perfume de um pereiro? a sombra de juazeiro, os mistérios das oiticicas, dos mofumbos? o brincar com as galinhas dos mencionados pereiros…. mais isso é papo ultrapassado no mundo da globlaização uniformizadora, de esquisiticie aos domínios da dita intelecutalidade (coitada) dos shopping, como nos alerta o sábio Jairo Lima…. Quanto ao meu retrato, estou a aguardar uma encomenda feita a um fotografo local, por meio de um poema de Cecília Meireles:

    ENCOMENDA

    Desejo uma fotografia
    amo esta – o senhor vê?
    Como esta:
    em que para sempre me ria
    com um vestido de eterna festa.

    Como tenho a testa sombria
    derrame luz na minha testa.
    Deixe esta ruga, que me empresta
    um certo ar de sabedoria

    Não metas fundos de floresta
    Nem de arbitraria fantasia
    Não… Neste espaço que ainda
    resta
    ponha uma cadeia vazia

    C. M.

    PS. a cadeira vazia me faz lembra uns versos de uma canção acho que cantada ´por Elizete, diz mais ou menos assim? entra meu amor fica a vontade,
    e diz com sinceridade o que desejas de mim…
    Acho bela, mas não concordo com tanta disponibilidade, gosto mesmo é de prestar sempre atenção a mim para não desejar “certos blogueiros iluminados que freguentam o Catita para desconcertar os corações até mesmo das mais protegidasdevotas de Santa Terezinha do menino jesus e Santa Maria Madalena, a protetora das mulheres que de muito amarem, mesmo que considerem todas as estórias de amor bem vindas, preferem, escolhem não mais sofrerem a incontancias dos homens atuais, a grande falta de bons companheiros reinante no território Potiguar (ou praga) e sim apenas viver as delicias das paixões. As vezes correm até mesmo o risco de encontrar os temiveis “Zé Cachorro misto com Zé Galinha”, e dos piores, os viajados e intelectualizados, com sua posse blazés. Esperem não ser necessário ficar constrangida por tão longo texto.

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