Das manchetes e das sanguessugas

27 de abril de 2010

Caraca!

Vamos, venhamos e convenhamos: algumas manchetes são tão saborosas de se ler, que redatores, copywriters, ghostwriters, escritores, escrevinhadores – enfim, toda essa patuléia que lida com as palavras – dariam um dedo da mão, ou do pé, ou um pedaço da alma pro senhor dos infernos ou por quem pagar mais – enfim, de novo – pelo inenarrável e incomensurável prazer de tê-las escrito.

Como as manchetes, hoje, são mais virtuais que “de jornal”, tome-se essa, por exemplo, do sítio da BBC:

Descoberta sanguessuga da Amazônia que vive em narina humana.

My God, como diriam os americanos, My Lord, como diriam os ingleses, Mon Dieu, franceses, claro, e, puta-que-pariu – o pessoal ali da esquina, enfim e pois.

Como a moda hodierna – leia-se “tendência” – é medir o tamanho do texto, como antes, reza a lenda, os garotos mediam o tamanho do pau (é, pau, mesmo, vamos usar a linguagem corrente), toda a tal manchete cabe duas vezes no twitter e ainda sobra uns caracteres de lambuja.

Muita econômica e de fácil leitura. Pois.

Mas, não apenas. Dissecando palavra por palavra:

Descoberta – Sensacional, como diria Alex de Souza, ornado de pontos de exclamação invisíveis. Descobrir algo é notícia em qualquer jornal ou sítio, aqui ou lá na Conchinchina (que o corretor do word me avisa ser Cochinchina, sem o ene). Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para as Índias, Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, fulano de tal descobriu a vacina contra não-sei-o-quê, sicrano descobriu a mulher com beltrano. Ou seja, todas, grandes descobertas, inegável. Ninguém descobre besteira. Pois. (Hoje eu vou encher esse troço aqui de pois, tentem me seguir, pois.)

– Sanguessuga – Palavra mui pouco usada, desconfio. Mas cheia de possibilidades. É também um tanto quanto anacrônica. As sanguessugas não têm, aparentemente, espaço no século 21. A etimologia remete para o século 16, latim, claro, onde sangue está para sangue e suga para sugar, chupar. É mais ou menos o que os vampiros fazem, mas ninguém teve coragem de chamar Drácula ou o Nélsinho, o Vampiro de Curitiba e do Trevisan, pelo termo. Sanguessuga é analógico, pois, não digital. Nada a ver com Blackberry. Pois.

– Amazônia – Atenção para o célebre contexto: ler Amazônia num site inglês é muito diferente de ler a mesma palavra no jornaleco da esquina, mesmo que seja a esquina da Ipiranga com a Avenida São João. A Amazônia, sob olhar estrangeiro, adquire ares e empáfia de um Harrison Ford. Muita aventura, colonialismo e a mesma prateleira, por exemplo, das pirâmides de Gizé (que eu acho, não tenho certeza, fica lá pras bandas do Egito).

– Narina Humana – Apressei a tal da dissecação, que tenho mais o que fazer – vocês podem até ficar lendo essas besteiras, mas eu preciso trabalhar, não sou filho de pai rico, não etc. E pois. Mas, voltemos à narina humana. Diversa, claro, da narina de um cachorro, a NH (narina humana, pois) tem sido comumente associada – últimos tempos e sinais deles, pois – ao consumo de cocaína. Antes disso servia pra acumular sujeira (“catota”, está no dicionário, não se preocupem) e aspirar perfumarias. O cheiro da mulher amada ou as madeleines de Proust – que não, não gostava de mulheres, mas isso é outra história.

Enfim, divaguei, divaguei, divaguei, mas a manchete perfeita continua incólume, impávida, colossal:

Descoberta sanguessuga da Amazônia que vive em narina humana.

Rende muito mais que uma matéria, ou cronicazinha besta: é mote, sinopse para filme B, que, nos dias-de-hoje, bem pode ser em 3D. Ou justificativa para qualquer desvio de conduta:

Perdão, senhora, se meti os pés pelas mãos e meus dedos entre as alças do seu soutien: tenho uma sanguessuga na narina que me tira o juízo.

Dinheiro na cueca? Deve ser essa sanguessuga que não me sai da narina.

Chega. Basta. Pois. Pra concluir, caso não leiam a matéria original, a sanguessuga-da-Amazônia-que-vive-em-narina-humana tem uma única mandíbula, oito dentes grandes e uma genitália minúscula.

Ou seja, não é lá essa sanguessuga toda, não.

Um Já Comentou para “Das manchetes e das sanguessugas”

  1. lissa disse:

    fiquei arrasada ao descobrir que conchinchina não tem o N inicial. acho um absurdo igual a plutão não ser mais planeta, e ideia não ter mais acento.

Deixe um Comentário