Da natureza dos lobos | Condicionamentos

23 de novembro de 2010

A clockwork orange, 1971

Que coisa.

Leio na versão nativa da gringa Scientific American (“A ciência como você nunca viu”, seu slogan) que pesquisadores americanos estão provocando em lobos uma inédita aversão por ovelhas.

Detalhe: os lobos são mexicanos. Mas eu chego já, já, lá.

Pelo que entendi, o lance todo lembra a teoria de Pavlov sobre condicionamento. Não lembro onde aprendi – ou penso que aprendi – algo sobre o russo (não confundir com a vodka): se nos livros escolares ou numa revistinha em quadrinhos. Metade do que sei, aliás, vêm dos gibis, devorados com louvor e graça na infância, especialmente aqueles com a assinatura inconfundível do senhor Walter Disney (nas horas vagas, eu morava em Patópolis, sim). Mas, retomando o fio da meada: Pavlov tocava um sino antes de oferecer a refeição ao cão. Resultado, com ração ou não no prato, o bicho salivava sempre que ouvia o tilintar do bronze.

Uma maldade, penso eu: imagina o coitado em dia de festa episcopal, com os sinos badalando pra lá e pra cá (sem falar no perigo em, passando diante da missa dominical, o canino tentar devorar todos os fiéis, pois não).

De Pavlov, a mente vagueia – cambaleia, se arrasta – até Laranja mecânica, o filme de Kubrick. Todo mundo viu. Ano que vem completa 40 anos e continua atual: num futuro imaginário, o líder de uma gang barra-pesada passa por uma terapia experimental patrocinada pelo governo para diminuir a violência sem precisar aumentar o número de vagas nos presídios. Com os olhos espalancados, o rapazinho assiste a milhares de cenas de violência enquanto um soro é administrado e, bom, enfim, o rapaz não pode nem pensar em um sopro de maldade sem que lhe venha ânsias de vômito.

O filme chegou a ser proibido no Brasil dos militares e, reza a lenda, toda cena de nudez era acompanhada de uma ou mais bolinhas pretas, cobrindo um seio, um sexo, uma nádega.

De Kubrick, mais uma vez a mente – essa ensandecida vagante – vagabundeia até Brilho eterno de uma mente sem lembranças, filminho neocult de um diretor cujo nome, olha só, esqueci.

Pois bem, neste filme “inesquecível” [perdão, não resisti], o protagonista também se submete a uma terapia, só que desta vez espontaneamente e para apagar de vez e literalmente a mulher amada de suas recordações.

Uau.

Voltemos aos lobos: então, puta sacanagem essa dos americanos com os lobos mexicanos. Impedidos de comerem as ovelhas americanas, se transformam, eles próprios, em ovelhinhas. Mas, sempre mexicanos continuam [aqui, a tese fluida do imperialismo americano].

Então, imaginem a cena: o lobo bobo, de bobeira, saliva diante da ovelhinha, sem saber bem por quê. Fome eterna de uma mente sem lembranças.

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