Cu

24 de março de 2010

Marcel Duchamp, Fonte-urinol, 1917

Vamos falar de cu.

Assim, indo direto ao assunto, sem meios-termos, nem metáforas, nem sinônimos bonitinhos.

Pensei até, em nome da tal moral e bons costumes, enfeitar o título com um “Cê-u”, pra disfarçar, pra edulcorar a pílula, mas, nada.

E se você continua lendo um texto que se intitula “Cu” e inicia com o convite “vamos falar de cu”, inocente, meu bem, você nem é nem há de ser.

Feito os preâmbulos, todos acomodadinhos, a explicação da escolha do tema.

Num salão de artes plásticas promovido por instituição cultural na aprazível cidade de ou do Natal, um certo Pedro Costa achou por bem enfiar um terço no reto e dali tirá-lo em performance artística (acho que é há um certa redundância nas duas palavras anteriores, né?).

Pois, logo, logo, no twitter, a ante-sala do Inferno e serventia do Cão, começou um rebuliço se o que rapaz fez/faz era/é arte ou não. Discussão inócua, estéril e mais antiga do que o urinol de Duchamp (que, por sinal, é de 1917). Tão antiga, também, quanto aquela anedota sobre a resposta do artista à pergunta “então, se eu fizer tal e tal coisa é arte?” – a resposta: “Se você fizer, não, mas se eu fizer, sim.” Tão antiga, ainda, quanto a vontade de romper com a tradição, de incomodar (André Breton, a propósito, dizia que Duchamp era não apenas um dos homens mais inteligentes do século, mas, para muitos, “o mais incômodo”).

Nessa vertente, é indiscutível a “conquista” (olha as aspas) de Pedro Costa – o que é de se estranhar: se quem enfiou 1.001 contas não se incomodou, por que os demais se sentiram tão incomodados?

Explicação lógica contrariando a razão: terço no cu dos outros, definitivamente, não é refresco.

Como a província continua rendendo loas ao Sul Maravilha, o apogeu e glória de Pedro da Costa deu-se quando chamou a atenção de Reinaldo Azevedo, blogueiro da Veja, e, por tabela, da sua legião de comentaristas, todos pês da vida com a profanação do artista. Eu, particularmente, acho muito mais indecente o que Azevedo e seus acólitos escrevem do que um crucifixo enfiado no rabo – o que prova mais uma vez a sabedoria do povo ao afirmar “gosto é como cu, cada qual tem o seu”.

*

Agora, noves fora os preconceitos, esse tipo de arte, que busca o choque pelo choque é bem velhinha, né não? O próprio Duchamp já tinha desorganizado as idéias vigentes com o quadro Nu descendo uma escada, cinco anos antes do urinol. E já tinha sido precedido pelos cubistas, que por sua vez etc. etc. Muito gente, por exemplo, ficou chocada com os objetos retratados – e, de um certo modo, desconstruídos – por artistas como Braque e Picasso. E não tinha nenhum objeto erótico entre eles. Aliás, é do espanhol a frase

“Todos querem entender de arte. Por que não tentam entender o canto de um pássaro?”

Por fim, que já enchi o saco de falar de arte, Georges Bataille publicou a primeira edição de História do olho na década de vinte, século passado. O narrador começa dizendo que cu é “o mais belo nome entre os nomes do sexo”. A protagonista, Simone, 15-16 anos, gostava de quebrar ovos – adivinhem – sim, no e com o cu. Ovos, ovos. Digo, de galinha. Galinha, galinha, nenhuma metáfora moderninha. Enfin, depois de provocarem a morte de outra adolescente, o casal de anjinhos viaja para a Espanha, onde Simone se masturba no confessionário de uma igreja e faz tantas misérias com o padre, que é melhor eu nem contar senão as almas pias me apedrejam.

Mas não vou deixar de jogar aqui pelo final uns versinhos-diálogo de Paulo Leminski e Alice Ruiz – diz o primeiro:

nisso eu sou primário

amor pra mim

vem do caralho

E a moça, sua companheira:

nisso eu sou careta

amor pra mim

vem da buceta

Pois.

Gustave Courbet, A origem do mundo, 1866

18 Já Comentaram para “Cu”

  1. Marcelo Henrique disse:

    Tanta coisa para ele enfiar no cu, né não??…acho que ficaria mais excitante e interessante um abacaxi enfiado pela “coroa” ou quem sabe um “cone” desses que a polícia usa para fazer barreiras, poderia ser tb um aparelho celular (olha que contemporâneo!!)…mas o “artista” resolveu “chocar” enfiando de cu a dentro um rosário, acho que o tal do “star” deveria sim respeitar os ícones que representam uma fé religiosa, pois falta do que meter no cu é que não foi.

  2. sandro disse:

    Adorei. Por mim fechava essa discussão aqui, ta dando nos nervos ja tanta gente idiota falando do que nao sabe!!! AFFF

  3. Ah! Qualquer coisa about o “mossílabo” rende que só.
    Ô Marioivo, e é bom que vc esteja por aqui escrevendo esses posts, porque diz tudo o que eu quero dizer e não tenho na maioria das vezes nem disposição, nem conhecimento e nem paciência.
    Falow.

  4. Ha! O “monossílabo”! Leia-se “mo-nos-sí-la-bo”! Pois não é que além do terço o danado engoliu uma sílada de himself mesmo! E eu aqui bem pertinho escvendo e só notei depois.

  5. Avemaria Marioivo! Faz a copydescagem dessas messages please. Acho que tou com sono demais! Dia hard, hoje.

  6. Jota Eme disse:

    Ode ao Cu

    Por Jota Eme

    “ Dá-me um beijo onde o sol não bate”

    A Celso da Silveira e Zé Limeira

    Oh! Doce cú que encanta
    Na vida tu vens atrás
    Mais fede a boca que zanga
    Que os flatos que dás

    Quevedo já te cantou
    As graças e desgraças
    Belo mais que os da cara
    Não comete indiscrição

    Que tem os outros abertos
    O do cú tem de discreto
    Quando perguntas sobre peido
    O que tem ele com as calças

    Situados entre hemisférios
    Pacíficos e redondos
    Nádegas em sua missão
    Dupla, vital e plural.

    Poucos são os sábios
    Das glórias não vale o cú
    Apesar dos alfarrábios
    A vida sabe a chuchu

    Duas coisas me fascinam
    E são da minha paixão
    Um bom cú o ano inteiro
    E os livros por diversão

    Da boca sai palavrão
    A bunda é nacional
    E o que a boca goza
    O cú sofre com razão

    O ânus foi quem pariu
    Da vida um pobre coitado
    “a dar por um ano inteiro
    o cú de graça ao diabo”

    E vou partindo em segredo
    Pedindo desculpas às musas
    Se te cantei cú-amado
    Porque tem cú tem medo.

    Me despeço dando um peido
    Paras os que em cú
    Não tem peito
    E segue o cú-balançando

    Qualquer roupa veste o nu
    Menos gravata e colete
    Porque não cobre o cacete
    E as regadas do cú

  7. Sérgio Vilar disse:

    Vai tomar no terço, Mário Ivo! Inveja do carái. Queria ter escrito esse texto..rs
    Abraço!

  8. hahahahaha
    Minha gente que anda por aqui, Mário Ivo – garoto esperto – preferiu não corrigir os erros dos meus comentários. Falou que ficava melhor assim. Vcs acham?
    Ainda sobre o monossílabo, o lugar aonde o sol não bate, uma amiga que é proctologista (especialidade médica referente ao dito CUjo) diz que é um lugar danado de chato pra gente ter uma doença nele. Isso porque quando o incômodo é na cabeça, vc bota a mão em cima e diz: ai, minha cabeça; no coração: ai meu coração; mas no monossílabo não dá pra fazer isso.
    Ô lugar complexo!
    E mais ainda, a pergunta que não quer calar. Já fizeram OS MONÓLOGOS DA VAGINA e os DIÁLOGOS DO PÊNIS. Ninguém fez ainda O SOLILÓQUIO DO CU. Fica a sugestão…

  9. Sayonara Pinheiro disse:

    Pedro apenas expeliu o que nos foi e é metido guaela abaixo por séculos.

  10. Jota Eme disse:

    Parabens Sayonara, querida

    Concordo com voce

    Quando se faz qualquer coisa diferente. Eles, os babacas, dizem que ja foi feito.

    tambem botei meu cu aqui para eles dizerem que ja conhece. O cu, oh…..

  11. Jarbas Martins disse:

    HAIKU OU READY MADE PARA O BLOG DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

    O Ledo Ivo

  12. lissa disse:

    dada a quantidade de comentários ( o meu inclusive), vê-se que o que vc não tem é leitores inocentes…e lendo o último comentário de clotilde, fiquei encafifada ( a palavra existe???) a pensar: o que leva um médico a querer ser proctologista?

  13. Jarbas Martins disse:

    Mário Ivo, a matéria sobre o cu rendeu muitos comentários inteligentes, de escritores e poetas como Clotilde Tavares , Gustavo de Castro e Nina Rizzi.Parabéns.Do Beco da Lama, passando pelo Sebo Vermelho,
    e até no café da Cooperativa Cultural da UFRN, não se fala em outra coisa.Já se pensa em uma antologia sobre o tema em nossa envergonhada literatura.Por que você não toma a iniciativa e a organiza ?O Adriano de Souza tem um poema clássico sobre o escatológico tema.Falves Silva tem uma série de poemas visuais,datados do período do poema processo.Lembro-me de um poema, nos idos dos anos sessenta, de Nei
    Leandro de Castro: A HÓSTIA. Não sei se o Nei chegou a publicá-lo.Eu mesmo tenho um poema -HAIKU- que
    o grande Avelino de Araújo fez uma versão digital, e publicou num catálogo internacional de poesia visual.Eis
    o meu poema em sua forma literária:

    HAI-
    A PEQUENA ROSÁCEA-
    KU

    Um abraço do seu leitor e admirador, Jarbas Martins.

  14. Cara Lissa, como médica que já fui – tenho diploma e trabalhei 17 anos na área – o que leva um médico a ser proctologista é impulso semelhante ao que conduz pneumologistas, gastros, cardios, otorrinos, ginecos e outros especialistas a se dedicarem àquilo que escolheram. Vá por mim: pra gente, essas coisas não fazem diferença. A região terminal do intestino grosso, e o orifício associado, constituem tão somente mais uma parte da anatomia similar a qualquer outra. Não esquenta.

  15. Laélio Ferreira disse:

    Mário Ivo.

    Evoé!

    Essa “Ode ao cu” do “Jota Eme” – leia-se João da Mata Costa, “poeta”, Doutor em Física, professor universitário e aloprado freguês de caderno do “Substantivo Plural” do Tácito Costa – é uma ofensa grave e deletéria contra meu amigo Celso da Silveira e o Poeta do Absurdo, o gênio de Teixeira. João da Mata bem que podia ter aliviado os dois falecidos, oferecendo a “obra prima” ao Pedroca que tirou do cu um terço – e ainda vai ser premiado pela Funcarte…
    O físico caminha, célere, para a Academia de Letras. Isto é: se os parentes dos imortais falecidos deixarem.
    Homessa!
    Laélio Ferreira

    Laélio Ferreira

  16. Laélio Ferreira disse:

    DEU NO JORNAL:
    “Artista que retirou rosário do ânus vai receber premiação da Funcarte
    (“Tribuna do Norte”, 23 de Março de 2010)
    “O cientista social e artista visual Pedro Vieira da Costa Filho, o Pedro X, vai mesmo receber o cachê no valor de R$ 1.350 da Fundação Cultural Capitania das Artes pela polêmica performance da abertura do XIII Salão de Artes Visuais da Cidade do Natal. No evento, no dia 12 de março, ele ficou nu e retirou um rosário do ânus na frente dos presentes ao evento.

    Depois das polêmicas declarações do jornalista Eugênio Bezerra, assessor da prefeita Micarla de Sousa, de que o artista não receberia a premiação da Funcarte em função de sua seleção para o Salão de Artes Visuais, a Funcarte finalmente confirmou que todos os artistas, inclusive Pedro, receberão o prêmio inicialmente estabelecido.

    Em portaria publicada no Diário Oficial do Município de hoje (23), a Funcarte ratificou os nomes dos vencedores do XIII Salão de Artes Visuais da Cidade do Natal. Entre eles Pedro Costa que realizou a polêmica performance, segundo ele contra a descolonização do corpo e para expurgar a interdição católica sobre o prazer anal.”
    M O T E :

    Com um terço todo cagado
    que está lá na Prefeitura

    G L O S A :

    Vexame na minha terra,
    vergonha pro Rio Grande
    - a veadagem se expande,
    ouriçada vai à guerra…!
    Muito puto, por cá, berra
    torcendo pela frescura…
    - Pois que façam benzedura
    no próprio cu arrombado
    com um terço todo cagado
    que está lá na Prefeitura!

    Natal/março/2010
    Laélio Ferreira

  17. Laélio Ferreira disse:

    Nenhum cantador no mundo…

    (“Tribuna do Norte”, 23 de Março de 2010)
    “O cientista social e artista visual Pedro Vieira da Costa Filho, o Pedro X, vai mesmo receber o cachê no valor de R$ 1.350 da Fundação Cultural Capitania das Artes pela polêmica performance da abertura do XIII Salão de Artes Visuais da Cidade do Natal. No evento, no dia 12 de março, ele ficou nu e retirou um rosário do ânus na frente dos presentes ao evento.”

    M O T E :

    Em vez de uma pomba inteira
    meteu um terço no cu

    G L O S A :

    Nenhum cantador profundo
    ou bardo de pé-quebrado
    vai concordar com um veado
    tirando merda do fundo!
    - Limeira, (1) mudou o mundo!
    - Sesiom (2), mudou o Assu!
    Natal, hoje, é um randevu:
    um fresco, lá na Ribeira,
    em vez de uma pomba inteira
    Meteu um terço no cu!

    Natal/Março/2010
    Laélio Ferreira

    1) “Zé Limeira”, o “Poeta do Absurdo”, cantador afamado, paraibano de Teixeira-PB, imortalizado na obra de Orlando Tejo.

    2) Moisés Sesiom, poeta assuense, nascido em Caicó-RN. O maior fescenino de todos os tempos, no Estado.

  18. Jota Eme disse:

    A vós néscios que de cu e arte não entende nada

    Pedro tirou do cu o Rosário
    Fez da arte um comício
    Inda quer ganhar dinheiro
    Com tamanho estrupício

    Seu cu virou santuário
    Culpou a Deus e o Nu
    Não escapou jesuíta
    Que fez do índio tabu

    Na cidade só se fala
    No forebus do Rapaz
    Em Berlim vai morar
    E faz tudo pela paz

    O terço tem seus mistérios
    Gozosos e luminosas
    Do botão saindo contas
    rosários-rubras e rosas

    Doloroso deve ser
    Fazer do cu tanta arte
    e do forebus missão
    Quero dar meu parecer

    Se é arte eu não sei
    quem faz do cu santuário
    De onde sai tanta merda
    Disse Laélio é um otário

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