Cose che non posso dirti

25 de dezembro de 2012

Alice Pasquini

Basta um segundo e a morte chega. Basta um minuto e a vida segue. Basta uma hora e o tempo esquece. Basta um dia e a noite vai.

Basta um mês de silêncios. Basta um ano de lembranças. Basta um século de esquecimento.

Basta que eu não saia de casa. Basta que eu tranque a porta. Basta que eu não vá dormir.

Basta que eu acenda uma – única – luz. Basta que eu não pague as contas – uma, única, conta. Basta que eu perca os sentidos.

– Um único sentido –

Basta que prolongue a raiva. Basta que eu corte os cabelos. Basta que eu costure os pulsos.

Basta que eu rasgue a carne. Basta que eu abra as pernas. Basta que eu me deixe gozar.

Basta não usar camisinha. Basta cheirar uma carreira. Basta acender o fósforo.

Basta abrir a geladeira.

Basta não lavar os copos. Basta esquecer os corpos. Basta açoitar o bicho. Enxotar o bicho, chutar o bicho, deixar o bicho sem água.

– Amarrado – no quintal – debaixo do pé de goiabeira, na chuva –

Basta deitar no assoalho – da cozinha – como um selvagem.

Basta sentir frio. Basta morrer de calor.

Basta deixar a porta – da geladeira – na cozinha – entreaberta.

Basta tocar piano. Basta Rachmaninoff. Basta Glenn Gould. Basta Katia – e Marielle Labèque

Basta bater uma punheta. Basta rosnar pros cães. Basta babar, enquanto empurra o carrinho de supermercado pra fora – do supermercado.

Basta atravessar terrenos baldios. Basta atravessar pontes. Basta cruzar sinais. Basta vasculhar o lixo. Basta abrir gavetas. Basta abrir armários. Basta esquecer as chaves, sobre a cômoda, no hall, na entrada, o elevador aberto, uma luz fluorescendo, um neon numeral.

Basta apertar um botão, basta uma palavra, um gesto, uma espiada.

Basta ir ao hospital. Nas primeiras horas da manhã. Basta uma maca no corredor. Um lençol puído, um soro na veia, um dia de sol. Basta um dia de sol. Basta um céu de nuvens. Basta uma estrela de pontas no colo.

Basta um deus na garganta.

Basta uma faca nos rins. Basta um salto na ponte. Basta um adeus.

Em tudo basta um basta.

Em tudo, não basta.

Um Já Comentou para “Cose che non posso dirti”

  1. claudia disse:

    basta um amigo!

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