Como separar o cargo, da pessoa

14 de dezembro de 2009

O editorial do jornal italiano La Repubblica, assinado pelo jornalista Ezio Mauro, merece ser lido e refletido, por vários motivos: primeiro, porque os choques entre políticos corruptos (ou acusados de corrupção) e cidadãos têm se intensificado no mundo todo, incluindo o Brasil. Segundo, porque os choques entre adversários políticos também se intensificam às vésperas e durante períodos eleitorais – como no próximo ano, aqui, em plano nacional e estadual. E, terceiro, mas não menos importante, simplesmente porque, muitas vezes, sem perceber, nós, pretensas cabeças-pensantes da sociedade, “formadores de opinião” etc., ao pensar que estamos agindo criticamente, às vezes com aquela ironia malandra, típica dos latinos, terminamos por nos tornar reféns daquilo que combatemos: a violência. Que sempre gera violência. A tradução é do sobrescrito.

“Atingiram Berlusconi. A imagem do rosto do primeiro-ministro transformado numa máscara de sangue nos atinge a todos com sua carga de violência. Com sua loucura, que transforma um homem em um símbolo a ser abatido a qualquer custo e com todos os meios, e que transforma a pessoa em um alvo físico. O vídeo dramático da Piazza Duomo vai girar o mundo, testemunhando a degradação do confronto político na Itália. Mas, desta vez, isso não é o mais importante. Muito mais importante é o efeito em cada um de nós, sobre o país, sobre o sistema político.

“Amigos e adversários, defensores e opositores, devem hoje estar unidos e solidários com Berlusconi – como nós estamos –, no momento em que o primeiro-ministro é um homem atingido pela violência. E devem fazer uma única barreira contra a insanidade desse gesto, em primeiro lugar porque é gravíssimo por si só, e porque pode trazer em si a semente de uma época trágica que já vivenciamos, nos piores anos de nossas vidas.

“Só assim a política (que a violência deseja calar) pode se salvar, reencontrando seu espaço e sua autonomia, autonomia esta que inclui o duro confronto entre maioria e oposição e também o choque de opiniões, programas e estratégias. Mas sabendo diferenciar, sempre, as críticas, do ódio; o choque de idéias, da violência; os cargos, das pessoas.

“Ainda que o gesto de Piazza Duomo seja isolado e fruto da loucura individual, o que está em jogo é nada menos que a liberdade. A liberdade de Berlusconi para exercer as suas políticas e suas idéias coincide com a nossa liberdade de criticá-lo. Esse espaço de liberdade chama-se democracia: vamos defendê-lo.”

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