Como sair do fundo do poço

19 de outubro de 2010

Francis Bacon, Figure with meat, 1954

Semana passada eu tentava atualizar este blog. Blog é uma coisa, troço, tão inatual. E no entanto.

Pois. Andei escrevinhando umas coisas, mas deixei pra depois, e quando a gente deixa pra depois, já sabe: fica pra depois, feito fiado, só amanhã.

Como era, a semana passada, a mesma semana em que os mineiros chilenos saíram do poço, aproveitei a deixa para escrever – digo: rabiscar – algo sobre o nível deste segundo turno eleitoral, que está – ou estava – chegando a níveis subterrâneos.

E resumia: uma descida no Maelström, uma viagem ao centro da Terra, uma descida aos nove círculos do Inferno.

Ou seja, pra edulcorar a pílula, eu alinhavava – me refiro sempre à semana que passou – uns toques de literatura, citando Poe, Verne e Dante numa tacada só.

Em comum, na trinca, a descida, o abismo, o nível. Tão profundo quanto baixo.

Estarrecedor.

Do livro de Verne vocês hão de lembrar: é a aventura de um professor e seu sobrinho que descobrem uma passagem para o centro da Terra, pois, logo abaixo de um vulcão islandês.

Mas os cenários, salvo engano, beiravam mais o fantástico que o assustador. As praias do Mar de Lidenbrock, por exemplo, batizado com o nome do seu descobridor, tinham areias finas e douradas e uma aurora boreal iluminando eternamente as ondas – as aventuras de Verne são uma matinê, comparados à “selva escura” de Dante (muito antes do Heart of darkness de Conrad, pois), aonde desembocam os gauches na vida, guiados ou não por anjos tortos. O Inferno, segundo o namoradinho de Beatrice, tem bordas abissais, um “profundo fosso doloroso/ que acolhe o eco de infinitos ais”.

E a descrição mais pesada e visualmente perturbadora é a do bostoniano Edgar Allan Poe sobre a paisagem descoberta no alto do Helseggen, o “Monte das Nuvens”, na costa da Noruega, longe pra caralho:

Olhei estonteado e contemplei uma vasta extensão de oceano cujas águas tinham um matiz de tinta tão acentuado que imediatamente me lembrou a descrição do geógrafo núbio sobre o Mare Tenebrarum. Nenhuma imaginação humana pode conceber um panorama mais lastimavelmente desolador.

Estarrecedor. Desolador. Lastimável.

Eram os adjetivos que poderiam resumir as sensações provocadas por este segundo turno. Na semana que passou. De um lado e de outro, fique claro, com o tucano e a petista, contritos, mãos postas, rezando no altar baixo do populismo, onde, em vez de anjinhos barrocos, pairavam fetos disformes.

O Horror, o Horror.

A pergunta da semana passada deveria ser: quem vai nos resgatar do fundo do poço aonde chegou este segundo turno?

Aí, a semana passada, como visto, passou.

E veio a segunda-feira e o Teatro Casa Grande, na Guanabara, se encheu de artistas, músicos, escritores, teatrólogos, cartunistas, essa gente toda “da cultura”, todos unidos porque viram que o buraco é mais embaixo, que ficar em cima do muro é permanecer no fundo do poço e se Dilma não é nenhuma flor que se cheire com Serra o odor é bem mais nauseabundo.

2 Já Comentaram para “Como sair do fundo do poço”

  1. Jarbas Martins disse:

    O espetáculo, Mário Ivo, incita-nos, torna-nos perversos.Isso aí são cacos tirados de uns versos de Cesário Verde, que você bem conhece.Suas afinidades com Baudelaire´, e com crepúsculos, perversões como colher florezinhas malsãs, nos canteiros familiares, ou estender um olhar lascivo para uma passante…nada mais tão íntimo,e cotidiano, e familiar como o sucrilho meu de cada dia.E a telenovela Passione.Só não esperava essa crônica, overdose onde, de cara, me deparo com um desconhecido Bacon.E, como não bastasse, alusões a Conrad, Horror, o Horror ! E aquela cena, preparada pelo sádico Poe, Mario Ivo… E Dante. De uma varanda crepuscular, distante de uma Irani, tão distante, tão próxima de mim, dedico-me nessas horas a uma idiossincrasia, como imaginar o que, além das janelas dos apartamentos, os meus alheios vizinhos vivem esse fim de tarde ou começos de uma sexta-feira, uma criança em disponibilidade. E aí vem a crueldade maior de Deus. Por que, Senhoir, inventaste a infância ? Esses serezinhos feitos à semelhança de um Jesus…E esqueçamos aqui o destino dessa criança. Usada para tanta serviço…Vender produtos domésticos, servir de personagem de Joyce, numa pequena ponta naquele calhamaço que o Chico Ivan adora. Não, Mario Ivo, não dá para se comparar criança com a boca da noite. Era assim que minha avó Liquinha chamava aqueles fins de tarde, portadores de serenos malignos e sofrimentos insuportáveis para os meus dez anos. O espetáculo da dor, em cores, eram tão fortes, que ficava ali, na janela de um oitão pensando: é capaz de amanhã não ter mais Angicos!

  2. soraia disse:

    não há buracos, não há muros, tudo escorre no plano da sordidez e mesquinhez cotidiana: sobram fedores, monstros são acordados…porque aqui na face da terra sobram bichos escrotos (titãs)

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