Comércio

12 de março de 2011

Não sei se aos sábados ou aos domingos, meu pai descia a ladeira de Marpas e nos levava pra comprar carne no açougue da Ribeira. Pela curta distância entre o alto e o baixo, entre o céu e o chão, pelo ângulo acentuado de inclinação, a ladeira nos deixava um frio-vácuo na barriga.

Ríamos.

Mas em segundos já estávamos lá embaixo e ninguém pedia pra repetir a sensação.

Nesse lá-embaixo não se via o rio. A Ribeira era um pouco de Rio de Janeiro. Um pouco de Paris.

E não conhecíamos nem a Guanabara nem o Quartier Latin.

Aos sábados, domingos, não havia carros, não havia gente nas ruas.

Não fazia frio, nem fazia calor.

Sei que era um açougue, porque se vendia carne. Não lembro de placa, tábua de preços. Não lembro de ganchos, facas, aventais sujos de sangue. Não lembro da cara do açougueiro. Se gordo, bigodudo, tatuagem no encontro disfarçado de bíceps e tríceps.

Eu não sabia o nome que se dá ao corte da carne.

O nome que se dá ao Homem que vai ao Matadouro.

Eu não sabia bem, se aos sábados ou domingos, mas era quando meu pai descia a ladeira de Marpas e nos levava pra comprar carne no açougue da Ribeira. Ao descer a ladeira, no banco de trás, ríamos. Porque em breves instantes o carro perdia sua gravidade e nos gelava as barrigas infantis.

Não precisávamos de cinto de segurança. Não precisávamos de parque de diversões. Não precisávamos repetir o feito. Não precisávamos de Paris ou Rio. Sartre, Vinicius.

Tudo que queríamos estava ali: um pai, um carro, quatro rodas, um susto anunciado, e a carne de toda uma semana, o horizonte mais longe que então podíamos alcançar.

5 Já Comentaram para “Comércio”

  1. Jarbas Martins disse:

    O comércio é a vida.É o que tua bela crônica nos diz, Mario Ivo.Lembranças perdidas, lucradas, vencidas, contabilizadas.Abraços.

  2. carito disse:

    Era bom demais!!!

  3. claudia disse:

    histórias escritas enquanto vivemos e depois contamos!

  4. Laélio Ferreira disse:

    Barbudo competente, esse Mário Ivo, descendo a ladeira…

  5. ciro pedroza disse:

    impagável essa viagem. inesquecível esse friozinho na barriga da ladeira de Marpas. parabéns pela lembrança.

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