Charlotte

1 de setembro de 2009


Na banca de revistas, Charlotte Gainsbourg não sorri nem pisca pra mim, mas basta seu rosto sem maquiagem e nenhum glamour aparente e explícito – ou ao menos aquele tipo de glamour que Hollywood e o cinema europeu nos habituaram –, enfim, basta seu rosto, os cabelos quase escondendo um olhar entre a tristeza e o mistério, basta ele, seu rosto, basta ela, a mulher, estampados na capa da revista Top, edição 128, R$ 11, pra que eu leve Charlotte pra casa, como se eu estivesse realmente levando Charlotte pra casa.

E é só então que eu me dou conta o porquê da filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin estar tão em evidência nestes dias, no mundo e, por tabela, por esses Tristes Trópicos também: eu tinha esquecido que Charlotte divide com Willem Dafoe o polêmico “O anticristo”, última provocação cinematográfica de Lars von Trier, o dinamarquês que parece adorar impingir dor e sofrimento às suas personagens femininas, a começar pela personagem de Emily Watson em “Ondas do destino” (1996), passando pela já folclórica relação com Björk (em “Dançando no escuro”, 2000), e com os castigos impostos a Nicole Kidman, em Dogville (2003). Misoginia ou não, Von Trier extrapola nesse “O anticristo” ao fazer que a personagem interpretada por Charlotte chegue à automutilação, entre outras coisas terríveis – o que a francesa fez tão bem que levou pra casa a Palma de Melhor Atriz no último festival de Cannes.

Talvez demore para “O anticristo” passar por estas telas, mais afeitas aos megacombos pipoca+coca, mas os poucos espectadores que compareceram ao Festival Varilux de Cinema Francês (por aqui, em novembro passado) devem ainda lembrar de Charlotte em “Felix e Lola”, de Patrice Leconte, quando a moça já emprestava seu rosto e olhar singulares a uma personagem misteriosa e enigmática, capaz de provocar terremotos, maremotos e outros pensamentos imperfeitos nos homens, ao menos naqueles entediados e quase enjoados de tanto silicone, lábios voluptuosos, seios vertiginosos e melancias calipígias.

Quase feia, sim, mas, que esperar do cruzamento de Serge Gainsbourg com Jane Birkin? Se a beleza de Birkin é famosa, a feiúra de Serge é quase folclórica – um homem que “parecia um cruzamento de uma tartaruga elegante com um lobo indecente viciado em cigarros”, é a (ótima) definição de Sylvie Simmons, sua biógrafa em “Um punhado de Gitanes” (no Brasil editado pela Barracuda, em 2004).

*

anti

Aos 13 anos Charlotte gravou um dueto com o pai, a canção, “Lemon incest”, que falava sobre incesto e causou certa polêmica. Antes de completar 15 anos, foi a vez de um filme (“Charlotte forever”), onde atuou meio a contragosto, porque não queria perder as aulas e no qual interpretava uma adolescente envolvida com um pai alcoólatra. No mesmo ano gravou disco homônimo onde numa das faixas definia o pai como um cara que “trepa demais, fuma demais, bebe demais”. Um ano depois foi quase seqüestrada por uma gangue de filhinhos-de-papai comandada por um príncipe francês.

Bom, sendo assim, Von Trier não é nenhum bicho.

Time

O ex-presidente da Funcarte, Dácio Galvão, lança – logo mais, a partir das 19h, no Budda Pub – o CD “Poemúsicas”, que conta com parcerias e interpretações indiscutivelmente de peso: Alceu Valença, Arnaldo Antunes, Banda Dida, Dominguinhos, Geraldo Azevedo, Gereba, José Celso Martinez Corrêa, José Nêumanne Pinto, Mônica Salmaso, Ná Ozetti, Naná Vasconcelos, Paulinho Boca de Cantor, Renato Braz, Silvério Pessoa , Waldonys, Walter Franco e Zeca Baleiro – entre outros.

O destaque é um registro da voz de Oswaldo Lamartine “cantando [sic] trecho do Coco do Tamanqueiro” (isso segundo um release) ou “entoando um coco de embolada” (noutro). A conferir.

Bahia

Mais um Seis & Meia desses que dá vontade de dizer “imperdível”: logo mais, 18h30, claro, Romildo Soares abre o projeto para Paulinho Boca de Cantor e Luiz Caldas, ambos baianos. No Teatro Alberto Maranhão.

Mais um

Ainda há esperança: ao menos o lançamento de hoje, terceiro piso do Midway, 19h, não é de, nem poesia nem conto nem crônica nem romance nem nada que flerte, no bem, no mal, com a clássica literatura – é o livro, técnico, “Curso de manutenção eletrônica analógica”, de J. Aguiar.

Kuhl

Leio no Território Livre da blogueira Laurita Arruda que as praias deste Ryo Grande apareceram na Caras edição portuguesa – em destaque, o “esquibunda”, o “aerobunda” e outros esportes locais (incluindo o passeio de dromedário).

Muito legal.

Ah, a reportagem – portuguesa, com certeza – é de um certo Alexandre Kuhl.

Tudo, enfim, mui apropriado.

TICO-TICO

“Tico, passarinho de Deus! Rogai por nós.” – Flávio Freitas, artista plástico, via email, sobre a morte do músico Tico da Costa.

PROSA

“Essa é a vida agora, a outra acabou e eu fui despedido. Vivo o desemprego da vida, o desemprego do amor.”

Fábio Moon e Gabriel Bá

10 pãezinhos: crítica

VERSO

“Quem me vê por aí com esses vestidos / estampados / não imagina as grades, os muros / o chão de cimento que eles tornaram leves”

Iracema Macedo

“As vestes”

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