Chame o ladrão!

12 de maio de 2009

Dona Carminha é uma das figuras que mais gosto no Jornal de Hoje. E não é apenas porque ela é quem faz os pagamentos no fim do mês. É porque ela sorri, com a boca e com os olhos. E a gente sempre conversa umas besteiras que desanuviam a alma, cada vez que apareço em sua sala.
Pois, hoje, Dona Carminha, decidi escrever pra senhora. É que, se a polícia aparecer na redação me procurando, não se assuste nem se alarme – aliás: lhe autorizo a informar endereço, telefone, CPF, o que danado mais eles precisarem. Não precisa nem me defender – desde já me declaro culpado. E, não, não se ofereça para acompanhá-los no camburão: eu mesmo faço questão de ir ao seu encontro.
Mas, calma, Dona Carminha, não precisa fazer essa cara de “o-que-é-que-esse-menino-fez?”. Eu explico: É que domingo passado fui almoçar com a família no Iate Clube desta brava cidade ribeyrinha, margens do Putigy, e, simplesmente, saí sem pagar a conta. Isso mesmo, repito, para a senhora e para quem mais possa ter achado estranha a confissão: domingo passado fui almoçar com a família no Iate Clube e saí sem pagar a conta.
Mais: saí com um sorriso nos lábios e uma sensação de revanche besta no peito. Doido pra ser chamado à atenção antes de entrar no carro estacionado, doido para que a barreira da guarita não se levantasse e o porteiro me abordasse com a acusação do calote em riste.
Invés, nada. Eram quatro horas da tarde, Dona Carminha, e eu caminhei até o carro sem que ninguém me interrompesse (não, não precisei sair correndo). E a cancela se levantou célere quando o carro se aproximou (desconfio, até, que o porteiro me saudou sorrindo).
Mas, repare no detalhe temporal do parágrafo anterior, Dona Carminha: quatro horas da tarde! O ponteiro pequeno no 4 e o grande no 12. Não seria nada demais, se eu não tivesse chegado ao club antes das 13h, com mesa reservada dias antes e a reserva confirmada, por telefone, horas antes, também.
Dona Carminha, nem lhe conto – aliás, lhe conto sim, senão como a senhora vai entender o meu crime? –, mas, ao chegarmos, a mesa reservada não mais existia. Quer dizer, existia, mas estava ocupada. E o club tomado por uma horda de filhos e mães e alguns filhos da mãe.
Vou tentar resumir o cronograma, Dona Carminha: por volta das 14h conseguimos uma mesa. Às 14h15 chegaram os pratos. E os garfos. E as facas. E os copos. O que nos deu algumas falsas esperanças. Vãs: passava das 14h30 e ainda não tínhamos bebido um gole d’água, uma soda limonada, um suco de umbu. Os garçons apareciam no salão a cada 15 minutos, no mínimo. Mas, coitados, não podiam nos dar muita atenção. Eram apenas quatro. Às 15h23 a comida ainda não tinha sido servida – isso porque tínhamos feito os pedidos antes das 14h, quando ainda esperávamos nova mesa. Em algum instante, entre as 15h30 e as 15h45, chegaram. Nem adiantar dizer que o peixe estava frio etc. – e que comemos com fome mas sem prazer. O pior é que, perto das quatro da tarde eu ainda não sabia se um dos pratos pedidos (o mais banal, o mais despretensioso, a clássica dupla filé-fritas) tinha sido ordenado na cozinha.
Ah, Dona Carminha, a senhora é mãe e sabe que a gente deve evitar aborrecimentos a quem nos colocou no mundo, ainda que num mundo de aborrecimentos. Daí que, esperei minha mãe e seus mais de 80 anos saírem, para começar a me aborrecer de verdade: procurei um garçom e nada.
Daí que, prevendo uma espera de horas para pedir a conta e mais outras para que ela chegasse e acrescentando outras tantas para esperar o troco, tomei a decisão de ir, simplesmente, embora. E pagar depois.
Pois então, Dona Carminha, se a polícia aparecer aí, pode confirmar a indicação do suspeito: foi esse sujeito mesmo que saiu sem pagar.
Mas, não se esqueça de acrescentar: foi quase a única satisfação que teve naquele dia.
*
FAR NIENTE
Anne Marjorie estreou ontem, na SimTV (canal 17), seu programa “Vida Boa”, de olho no público preferencialmente feminino – o que não impede que alguns varões assistam.
LIVRE
Laurita Arruda Câmara Patriota estreou pontualmente à meia-noite de sábado, ou primeiro minuto de domingo, seu blog no sítio da Tribuna. Manteve o mesmo nome do blog de estréia (antes ancorado no sítio do Diário) e a intenção de priorizar “a informação isenta”. Na transposição, perdeu dois sobrenomes.
JH
Mandando a isenção pras cucuias, o sobrescrito só pode elogiar – porque está muito bom, mesmo – a programação visual do novo sítio deste matutino, que derna a semana passada divide a mesma página com o vespertino. Confiram em www.jornaldehoje.com.br.
POTY
Já o “novo” Diário de Natal renasceu, feito fênix sobre as cinzas do defunto O Poti, com a velha confusão visual entre conteúdo e anúncios – domingo último, das 84 páginas, apenas 14 não apresentavam publicidade alguma.
ÁFRICA
Hoje tem exibição do filme “Ngwenya, o crocodilo”, documentário sobre o artista plástico e pintor moçambicano Malangatana Ngwenya Valente – com a presença da diretora Isabel Noronha: é o segundo dia do Ciclo de Debate sobre África Contemporânea, que debate temas atuais entre Brasil e Moçambique. No Auditório da Biblioteca Zila Mamede, 19 h.

PROSA
“O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.”
Eclesiastes
VERSO
“Ousarei com a vela ao vento
e uma outra vela acesa dentro de mim.”
Iracema Macedo
“Vela”

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