Certa noite, diante da TV, acordei de sonhos intranqüilos

29 de abril de 2010

Até que enfim fui ver Avatar. Fui, em verdade, não, que o mundo é célere e apressado: assisti Avatar em casa, em cópia oficial, tudo nos trinques. E pensar que dia desses estava no cinema da esquina – digo, da esquina do shopping. Como Maomé não foi à montanha, a montanha veio a Maomé: uma amiga me emprestou o DVD, que comprou nas Americanas, salvo engano, por R$ 39, precinho razoável para uma montanha, mesmo que virtual e não em 3D.

Como eu devia ser uma das três pessoas do planeta (Terra) que ainda não tinha visto o filme de Cameron – as outras duas, minha mãe octogenária e um freira oblata encerrada num convento na Suíça – desconfio que não terá nenhuma utilidade escrever sobre o assunto. Nem sobre Pandora, cenário do enredo e lua de um planeta que, na manhã seguinte à exibição doméstica, já me esqueci do nome.

Mas, vou. Por que não? Até para justificar os R$ 39 investidos pela minha amiga.

Então, pra começo de conversa, nos primeiros minutos do filme eu não parava de pensar na ex de James Cameron. A senhora Kathryn Bigelow roubou a cena na noite do Oscar – e não me refiro ao vestido que desnudava seus longos braços alcançando uma, duas, não sei quantas estatuetas. O marine de Avatar tem tanto a ver com o desarmador de bombas de Guerra ao terror quanto o disneyano Zé Carioca com o Zé Pequeno de Cidade de Deus.

Enfim, não dá pra comparar, mesmo.

Mas, para justificar os U$ 300 milhões, circa, investidos pelo valente Cameron, voltemos ao filme, pra comentar duas ou três coisinhas sobre ele.

Primeiro, que o grande demérito de Avatar é também seu grande mérito: bobinho que só ele, o enredo consegue explicar facilmente uma idéia complexa – a de que os humanos conseguiram criar em laboratório seres semelhantes ao povo Nav’i (não acredito que estou escrevendo isso) e animá-los à distância, como num videogame d’alma.

Segundo, que os tais Nav’i não passam de ianomâmis com mais glamour e fantasia – e gastar tanto dinheiro para transmitir a mensagem de uma vida em sociedade em comunhão estreita com a natureza me parece tão escroto quanto a Coca-Cola investir em causas sociais.

Terceiro, que Cameron e trupe são realmente geniais: a heroína Neytiri, quase que totalmente virtual, consegue ser tão encantadora que eu me apaixonei por ela a ponto de não me preocupar com sua pele azul, seus dentes vampirescos e seu rabo – no sentido literal – comprido.

Então, quando eu estiver sonhando com a princesa dos Nav’i, por favor, não me acordem pra comentar sobre a construção da usina de Belo Monte. Dêem play novamente, que a vida em 1D pode ser mais fantástica que a vida real em 3D.

Zoe Saldana na real e no virtual - alguma dúvida que a da direita é musa?

Um Já Comentou para “Certa noite, diante da TV, acordei de sonhos intranqüilos”

  1. Alex de Souza disse:

    O principal mérito do filme de Cameron foi justamente o que você perdeu: a maneira como cada plano foi pensado para o formato 3D. Ademais, nada demais.

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