Cena urbana

4 de dezembro de 2013

 

Kafka, por Crumb

Só quando o cara voltou pro carro pra pegar um porrete e um facão percebi que a picape sambada estava parada sem motorista e era dele, do cara, que, pra efeitos de, digamos, narrativa, vamos chamar a partir de agora apenas de, o gordinho. Pois, o gordinho correu célere pra lata velha amassada de um vermelho encardido, abriu a porta e sacou lá de dentro um porrete e um facão, talvez pra desilusão da moçada que na calçada da banca de jornais já fazia suas apostas, agitadinhos que só eles, só esperando a tragédia, vai pegar um revólver, vai pegar um revólver. Não, não era um revólver, nem um trabuco, nem um três-oitão, nem uma Luger. Tá com uma porra fosse uma Luger, né? Menos. Era um porrete e um facão, já disse, embora eu mesmo não vi a segunda arma, mas os carinhas em volta da banca continuaram eufóricos e sim, me garantiram, era um facão desse tamanho. Então, o gordinho volta a descer do carro, armado das duas mãos, mas a turma do deixa-disso já tinha cercado a futura quase vítima, um magrinho de óculos e rabo-de-cavalo que pensei já ter visto antes, talvez num curso de dramaturgia em mil novecentos e, mas, não, acho que era só parecido, com aquele outro, do curso de dramaturgia em, na verdade dois mil e alguma coisa. O magrinho se agitou todinho embora calculasse bem, malandro, a própria força pra não vencer de vez os braços da turma do deixa-disso que o continham e corriam atrás dele, como uma onda numa arquibancada de futebol, um coro grego, todos unidos em uníssono parecendo que tangiam uma galinha anabolizada ou boi enfurecido, que o magrinho era exatamente isso, uma cruza de galinha com boi. Diante da cena, o gordinho se deu conta que já bastava aquela história e, acompanhado de um negro magro, alto e de bigode aparado, entrou no carro e partiu, desobstruindo o cruzamento. Atrás dele tinha uma Pajero de vidros escuros que continuou parada apreciando a confusão. Em todo esse tempo tinha uma menina que gritava sem parar e aparentemente acusava o magrinho de alguma coisa, vou te denunciar, vou te denunciar, ela repetia, e não sei dizer agora se disse um filho da puta ou escroto ou os dois ou não disse nada e só ficou gritando. Quando a picape vermelha partiu, carregando o gordinho e o negro de bigode aparado, o magrinho ficou ainda mais agitado e pedia pra anotarem a placa, o que fizeram, um, de memória, e outra, com o celular. A essa altura da confusão, os estudantes do colégio em frente já tinham saído em bando e até um professor ou bedel tinha vindo em socorro do magrinho dizendo que ele era do bem, que era bom aluno e tal, enquanto outra moça insistia que ele era de menor e ninguém podia encostar um dedo no infante. Um dos frequentadores da banca, que já tinha avisado a polícia, dizia o contrário, aquele é um bandido, um bandido. O fato é que, rebobinando a história, a história era outra, diferente das aparências vigentes no momento clímax do caos. Alguns minutos antes, o magrinho, de óculos e rabo-de-cavalo, tinha dado um soco em outro aluno, maior e mais forte, aparentemente sem motivo. O agredido não revidou e apenas soltou um que é isso, cara? mas o magrinho não contou conversa e começou a espancar o mais forte. Foi quando a mocinha começou a gritar e o gordinho e o de bigode aparado, que não vou mais chamar de negro senão me tomam por racista, vinham passando na picape aos pedaços e desceram do carro pra apartar a briga e se envolveram, eles também, na briga. Essa parte eu vi. Testemunha ocular, tal. O magrinho brigava com os dois, e o do bigode chegou a dar um tapa forte na cabeça sem que ele pestanejasse. O mais incrível é que, tirando as ameaças gritadas pela moça, escroto, escroto, vou te denunciar, tudo aconteceu quase em silêncio, num balé desencontrado entre os dois magrinhos, o preto e o branco, e o gordinho. O magrinho de bigode aparado não disse uma palavra e o magrinho de óculos não perdeu, pois, os óculos. Acho até que em algum instante ele levou o indicador ao rosto e colocou-os novamente no lugar. Mas disso eu não tenho certeza e posso estar só imaginando.

Um Já Comentou para “Cena urbana”

  1. Nabucodonosor disse:

    Atheneu.
    Queria saber das pessoas que ocupavam a pajero pois a pelicula escura não me permitiu visualizar os ocupantes do automovel. vc sabe?
    só faltou esse minimo elemento para visualizar a cena.
    ah! e uma breve descrição da menina que gritava, pelo menos cor do cabelo.

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