Cartas de Salinger

17 de março de 2010

Vivo, até que respeitavam o desejo de reclusão de J. D. Salinger, o autor – precisa dizer? – de O apanhador no campo de centeio.

Morto há menos de dois meses, parece que, dia sim, dia não, encontram um jeitinho de fazê-lo revirar no túmulo, quebrando o descanso que deveria ser eterno.

A última sobre Salinger estreou ontem. E estreou não é modo de falar: o The Morgan Library & Museum expõe quatro de 10 cartas inéditas (até o presente) do escritor, todas endereçadas a Michael Mitchell.

And who’s hell Michael Mitchell? – perguntaria o leitor através do meu inglês macarrônico.

Hum, ninguém; apenas o cara que desenhou a capa da primeira edição de O apanhador. O El País refere-se a Mitchell apenas como um “amigo pessoal”. O sítio português I On Line, cita o diário espanhol mas acrescenta que o sujeito era também “escritor”.

Vai saber. Por enquanto é o correspondente da primeira leva de “revelações” do homem que menos desejava revelar-se à humanidade. E cuja vida, de informação desencontrada em informação desencontrada, vai sendo agora revirada.

Curiosos e amantes literários devem fazer carreira: a mostra das quatro primeiras cartas acaba dia 11 de abril e as outras seis serão exibidas de 13 de abril até 9 de maio.

A biblioteca-museu, que considera Letters by J. D. Salinger “um tributo”, diz que a mostra revela muitas facetas da personalidade do escritor e falam sobre casamento, viagens, trabalho e sobre o auto-imposto isolamento – muitas vezes em modo irônico.

Aliás, o relacionamento com Michael Mitchell serve como exemplo das idiossincrasias de Salinger: depois de quatro décadas de amizade, o escritor rompe com o amigo porque este lhe pede uma cópia autografada de The catcher in the rye.

A The Morgan Library & Museum (esquina da Madison Avenue com a 36th Street, Nova Iorque) tem o escritor em alta conta: as cartas são exibidas na mesma sala onde repousa uma Bíblia de Gutenberg, tão rara quanto (era) a exposição da vida íntima de Salinger.

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A biblioteca-museu merece um capítulo à parte e uma visita, especialmente para quem não viaja à Big Apple apenas pra comprar muamba – tem raridades a dar com o rodo: além de uma infinidade de livros, desenhos de Michelangelo e William Blake, gravuras de Dürer, aquarelas de Cézanne, e – pra citar um tema na moda – originais de John Tenniel para Alice no país das maravilhas.

O mais interessante é a sua origem: o filho do banqueiro J. P. Morgan transformou a biblioteca e a coleção do pai em instituição pública, em 1924. Desde então, seja com recursos próprios, seja através de outras doações, a coleção vem aumentando. Na pátria do Capitalismo, os ricos sabem o que fazer com o dinheiro.

Já, por aqui, abaixo do Equador sem pecados, se você está liso como eu, faça ao menos uma visita virtual à instituição, clicando bem aqui.

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