Carta ao pai

30 de julho de 2010

Foto de Giovanni Sérgio, príncipe dos fotógrafos potyguares

Ah, mas o sol já tinha deitado quando adentrei o avarandado do Yacht Club de Natal que, suponho e o sei, se escreve de outro modo e grafia, mas insisto, a isso chama-se, batiza-se, cala-se, ironia, tal, qual, mal, quando Laélio Ferreira de Melo, escondido entre uma garrafa de cerveja e chapéu panamá, enuncia meu nome qual trombeta do apocalipse e, vos digo, em verdade, repito, sol posto, sol morto, melhor assim, sem testemunhas senão as sombras e as derradeiras damas que vagueiam lá e cá e o Putigy apodrece em silêncio e ausência de lua, luar, serenata. A conversa não vai nem vem que isso é coisa para barquinhos ancorados – a nossa flui, maré secante, rumos do horizonte, alto-mar. Fala-se, claro, do pai, Othoniel Menezes, príncipe dos poetas potyguares, tempo em que poesia era coisa de realeza e não esse rés-do-chão enlameado de hoje-dia. Tempo em que Esmeraldo Siqueira, cutelo guardado no peito, debaixo do sovaco, abre espaço entre os milicos e abraça Othoniel, preso no Recife e desembarcado do trem da tarde e põem-se a falar na língua de Victor Hugo e Baudelaire para espanto da choldra que nada entende e hoje mais que nunca ignora. Nem olhamos os yachts ancorados e eu preferi ignorar as cordas do violão ao longe, perto. Polêmico por (de rerum) natura, não há que se concordar com tudo que Laélio pensa e fala (eu, por exemplo, concordo apenas uns 50% do que eu mesmo penso e falo), mas não deixa de ser uma dissonância necessária no curral das ovelhinhas. Daí, pois, que já me alongo, segue carta do pai ao filho, digo, do filho ao pai, que paternidade é via de mão-dupla, sem preferências – parte do livro próximo a ser lançado, última luz sobre a obra de O Príncipe:

CARTA PARA OTHONIEL NO AZUL, por Laélio

Meu caro amigo eu não pretendo provocar/
Nem atiçar suas saudades/
Mas acontece que não posso me furtar/
A lhe contar as novidades [...] Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta (Meu Caro Amigo, de Chico Buarque de Holanda)

“Seu” Othoniel, me abençoe.

Aqui está a sua “Obra Reunida”.

Compromisso cumprido, comigo mesmo.

Fiz o que pude, meu velho. Foram madrugadas sofridas, adiamentos, angústias, muita saudade. Relendo tudo o que escreveu, revisando e redigindo as notas – vão me chamar de prolixo, aposto! –, avivavam-se na cachola setentona as lembranças de tudo quanto sofreu: as perseguições que lhe fizeram; a sua pobreza digna, altiva e ao mesmo tempo resignada; a doença, o auto-exílio, a saudade de Natal, a perda de Maria.

Nas notas que redigi, as amargas, sobre indivíduos, pessoas, segui conselho do velho Balzac (“Pode perdoar-se, mas esquecer, isso é impossível”). Aos que lhe fizeram mal, perdoei  alguns, poucos. Dos outros, não esqueci nenhum: os nominei e sobre eles fiz registro merecido.

Há poucos dias, completei setenta  e uma safras de caju, aqui mesmo, na ocara grande do mestre-de-campo Felipe Camarão. Há quarenta, logo depois de Mamãe, o senhor, saudoso da terra, exilado e esquecido no Rio de Janeiro, partiu para o Azul.

Diz o povo – aqui, neste planeta amalucado – que a vida é frágil, que passa. Ficaram, porém, para mim, intangíveis, as suas obras, as lembranças, as saudades – repito. Permanecem, como impressões que o tempo atenua, mas não apaga. A eternidade tem a duração da memória de quem nos ama. Passamos pela vida dos outros deixando nossa imagem numa frase, num verso, no rosto de um descendente.

E quanto lhe tenho vislumbrado por cá, meu velho! Nos meus filhos, nuanças das coisas que eram tão suas: sorrisos desconfiados, recolhimentos, alegrias. Neles, vejo, sempre comovido, tudo isso e até mais nos gestos, modos de andar, alguns tiques, nas vozes, nos olhos deles todos – filhos e netos. Noto-me, ainda, muito parecido com o senhor, “incompreendido e incompreendendo” quanta coisa deste mundão cá de baixo, com a mesmíssima larga aversão à mediocridade provinciana.  Já houve quem nos chamasse, aos dois, pai e filho, de “irritadiços”. Valeria, pois, para ambos, aquele contundente e velho conselho sertanejo de que “não se pode discutir com um burro sem ter um pedaço de pau na mão?”

Vosmecê, meu pai, bem sabe que deixei os versos comportados muito cedo por muitas razões, limitando-me, nas horas vagas, às glosas sacanas, fesceninas, quase sempre de crítica e desabafo, metendo a catana numa pá de gente – às vezes, até, me arrependendo por algumas grosserias: a velha história de “não perder o mote”.

Poesia e cultura – “agricultura insana da cabeça” – nunca rimaram com felicidade material,  fortuna. O senhor mesmo dizia a Esmeraldo Siqueira, naquelas cavaqueiras das “hemiplégicas poltronas” lá de casa, que o único poeta que tinha dado certo, naquela sua época, era o Augusto Frederico Schmidt – milionário amigo e ghost-writer de Juscelino, embaixador e dono de supermercados.

Fui à vida, à liça, muito cedo, sem nunca sonhar em vir a ser um daqueles “intelectuais conterrâneos” que por cá saltitam e pululam. Fui, sim, catar o pão de cada dia em atividade profissional sem nenhuma poesia, Brasil afora, vasculhando – a bem da verdade, com pouquíssimo sucesso na hora dos julgamentos  pelas cortes – o lixo da corrupção fantástica de muitos comedores de verbas federais, lestos e mitrados rabos-de-couro, políticos viciados ou afilhados desta brava e malina gente.

Até hoje, nessa banda escura, nada mudou no Pindorama. Acho eu que a coisa só fez piorar, desde os tempos da carta de Caminha. Aqui, na nossa não muito gentil Jerimunlândia – canguleiro eu, xaria o senhor –, há poucos dias, um estentóreo historiador nativo, freguês juramentado de caderneta do Instituto Histórico, deu-me, solene, de pé e com vasto calhamaço agasalhado no sovaco, mesta e acachapante notícia sobre uma grossa estripulia do João Rodrigues Colaço, Capitão-Mor da Fortaleza e, dizem alguns, fundador da Cidade. Pois não é que o nosso contraparente, marido empistolado da fidalga e distante “prima”, Dona Beatriz de Menezes, está sendo acusado – veja só, o Senhor,  pode rir! –, séculos depois da tal tribuzana, de “doar a si próprio uma sesmaria na Redinha”? O que mal começa, segue mal a vida toda. “A gente vai vivendo e esperando que alguma coisa divina aconteça…” (Borges).

Linda e pobre terra, a nossa “iara morena, pulando na água serena do Potengi, a cantar”…

Muita água no velho rio desceu, o tempo rodou e, vamos e venhamos, Othoniel Menezes – o parnasiano, o modernista,  o jornalista, o ensaísta, o prosador, o etnógrafo, o folclorista, o humanista, o crítico –, hoje,  salvo para poucas pessoas, é apenas mais um nome de rua na Limpa dos Santos Reis. E apelido de prêmio de poesia da Prefeitura de Natal, só isso. Seus livros publicados foram poucos e, agora, são muito raros. O rio da sua canção, lá bem perto da ruazinha modesta, está poluído pela imundícia dos esgotos; o prêmio, temporariamente cassado pela pequenez cerebral da atual administração, entregue às baratas e borboletas viageiras.

Seu nome, Papai, sob outro ângulo, é sempre lembrado pelo povo, ricos e pobres, quando se canta a “Praieira”. Essa minha “irmã mais velha” que, aos oitenta e oito anos, permanece formosa, vetusta senhora, hino da terra, bela canção – “feita às pressas para homenagear humildes pescadores”. Continuou,  a modinha – sua e de Eduardo Medeiros –, fiel à premonitória nota de pé de página, de 1923, no “Jardim Tropical”, vaticinando a tal “ilusão efêmera da popularidade”.

Guimarães Rosa dizia: “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”. Pois é, Papai, quem desconfia agora sou eu, “a coisa aqui tá preta”, como diz aí por cima, na epígrafe, o filho de Sérgio Buarque de Holanda, aquele jovem que, na televisão, nos tempos da ditadura – aquela, infelizmente, que o senhor não lhe viu o fim – cantava “Pedro Pedreiro” e o chorão da “Praieira” chorava baixinho, fazendo chorar sua Maria, os dois na salinha modesta do apartamento do Catumbi.

Aqui, há muitas exceções, honrosas, decentes, mas a coisa, no geral,  neste piccolo mondo, “tá preta” mesmo no ensino (de todos os graus), nas academias – inclusive na de Letras, aquela que o senhor nunca foi lá tomar posse –, na política e no bestunto da maioria dos “intelectuais conterrâneos” – estes últimos produzindo mais do que sabiá no fundo da gaiola. O senhor, “Seu” Othoniel, não calcula quantos “poetas”, quantos “cordelistas de bancada” (uma invenção recente!), quantos “escritores”, quantos “tradutores” (os de Baudelaire, uspeanos cavilosos, são uma graça!), grosas de “jornalistas”, dúzias de “críticos literários”, centenas de “mestres” e “doutores” e até “filósofos metafísicos” expertos em “ciências mortas e línguas ocultas” (arre égua!) sobrenadam – todos! –  engalfinhados, esfalfados, sem fôlego, em petição de miséria, sapecando caldo e danando cangapé uns nos outros, no “Poço do Dentão” da Praia do Meio…

Para lá de atuais, perfeitos para a época – quadra gaiata por que passa o nosso torrão de canguleiros e xarias –, ajustam-se, como se luvas fossem, os sonetos do seu “Desenho Animado”. A colorida fauna, ali tão bem posta, permanece a mesma e quiçá muito pior. Os perus dos silogeus, por exemplo, continuam a rondar nos terreiros, sapientíssimos sandeus, os papos inflados a arrebentar de vento, fabricando, todo santo dia, gás do milho do alfabeto. Esmeraldo Siqueira, do seu tempo e que viveu mais tempo, seu amigo, verrumava mais direto:

Os asnos são divertidos,
Asnos bípedes, é claro,
Todos se julgam sabidos,
Dotados de senso raro.

Darcy Ribeiro dizia:

Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou-me resignar nunca.

O mundo e o País mudaram. Manda no Brasil, hoje, um partido criado por trabalhadores, que degringolou para a corrupção grossa, agradando aos pobres – e muito mais aos ricos –, “distribuindo riqueza” com projetos que dão o peixe, mas não ensinam a pescar.

No Brasil, os bancos nunca lucraram tanto quanto lucram agora. O país do seu querido Roosevelt, hoje – quem diria! –, é governado por um negro bem intencionado e competente. Por cá, a economia melhorou, afinal o país é rico. A droga vem acabando com a mocidade, a liamba e a cocaína correm frouxas,  inclusive entre muitos dos tais “intelectuais conterrâneos” papa-jerimuns. A violência campeia, em todos os níveis. Mulher anda casando com mulher, homem casando com homem. Os rios estão morrendo – o Armagedon se anuncia nas guerras e nas catástrofes, na fome, nas epidemias. E o Brasil, meu velho, perdeu a Copa do Mundo!

Novidade grande é uma tal de Internet e um certo “Professor Google”. Ferramentas para o bem e para o mal, facas de dois gumes. O “professor” é um gênio ao quadrado. Equivale, o mestre – só para o senhor calcular, por baixo –, a umas cem mil miscelâneas daquelas de João Babão[1], nos velhos tempos. Os sabichões daqui e de alhures deitam e rolam na maionese: copiam o que lhes interessa e sapecam em baixo e jamegão lustroso, na maior cara de pau, ganhando fama e prestígio entre os bestas.

No planeta poluído, os bons e justos ainda não descobriram aquela – “simples, fecunda, bíblica, feraz” – sementezinha de mostarda da paz de que o senhor fala nos versos da “Canção da Montanha”…

Bem disse – e disse bonito! – o poeta lusitano José Saramago:

Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.

Um beijo no senhor, aí, na dimensão Azul. Dê outro, muito saudoso também, em Maria de Othoniel.

Seu fim-de-rama,

Lelinho

Praça Pedro Velho, Natal, julho de 2010

[1] “João Babão” – Funcionário do Estado, boêmio, inteligentíssimo, famoso no meio literário de Natal nas primeiras décadas do século passado. Dizia possuir – sem a menor chance de empréstimo a quem quer que fosse – “a melhor e maior miscelânea de todo o Estado”. Nunca ninguém viu o volumoso calhamaço. João, hoje, em Natal, seria, no mínimo, apodado de “peripatético”. O Dicionário Aurélio registra: miscelânea [Do lat. miscellanea.] Substantivo feminino. 1. Mistura de variadas compilações literárias. 2. Volume que se compõe de coleção de estudos afins, escritos por vários autores para homenagear uma pessoa ou instituição em data significativa; polianteia, miscelânea de homenagem, volume de homenagem. 3. Fig. Mistura de coisas diversas. [V. mixórdia (1).] 4. Fig. Confusão, amontoamento, salgalhada.

2 Já Comentaram para “Carta ao pai”

  1. Jarbas Martins disse:

    bela e comovente e carta, amigo laélio. se há algo em você que me chamou a atenção,desde quando lhe conheci, como um dom de sua personalidade, é o amor filial que você tão bem externa, porque é verdadeiro e bíblico. você já me falou sobre seu pai em outras ocasiões, há mais de vinte anos. e nunca pude esquecer a ternura, a reverência e o zelo, quer pela figura do pai, quer pela figura do poeta e homem de idéias- othoniel menezes. a carta que você acaba de escrever vale como uma peça literária, onde a tópica (desculpe-me o termo acadêmico) do amor filial se faz presente de forma exemplar.e vale também como um documento para futuros estudos sobre othoniel menezes, um poeta pelo qual tenho grande admiração.abraços.

  2. Laélio Ferreira disse:

    Mário Ivo e Jarbas Martins:

    Obrigado!

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