Carros de luxo e hospital de referência

7 de junho de 2010

Os tais press releases continuam a me encantar.

Agora mesmo chegou um que começa assim:

Os profissionais de saúde do Hospital Infantil Sandra Celeste estão surpresos com a quantidade de usuários que vem buscando os serviços pediátricos nos últimos dias.

¿Que pasa por la calle, niños? Alguma epidemia? Terremoto, maremoto, acidente de moto?

Nada, nada, nada.

Simplesmente o atendimento “praticamente quadriplicou” porque o trabalho está sendo realizado como se deve, explicou a diretora, Telma Pereira.

Que acrescenta uma observação importantíssima como prova de que o trabalho “é referência e está sendo eficiente”:

À noite, principalmente, chegam pais em carros de luxo trazendo os filhos para consultas, pois já souberam que aqui o atendimento é 24 horas, com equipe treinada e especializada, contando com três pediatras por plantão, com toda estrutura de exames de sangue, raio x, e ainda tem o retorno ambulatorial.

Ou seja, coisa de primeiro mundo mesmo, hein? E o cenário fica ainda mais exuberante com tantos importados no estacionamento.

Maravilha.

O danado é que, como aumentou – “inesperadamente” – a demanda, o tempo de espera também cresceu. O atendimento não é por ordem de chegada, explicou a diretora através do release, mas pela gravidade do caso.

Ou seja, contrariando a lógica, alegria de rico dura pouco: vão ter que estacionar seus importados noutra freguesia.

Um Já Comentou para “Carros de luxo e hospital de referência”

  1. múcia disse:

    É interessante observar que o referido serviço seja utilizado pelas famílias mais abastadas da cidade, já que ele se encontra em uma área nobre de lagoa nova, em um prédio alugado pela prefeitura e inacessível à maioria da população de baixa renda, se observarmos a malha víária municipal, sobrando evidentemente vagas para as criancinhas mais abastadas, o que não quer dizer que elas não tenham direito, já que são cidadãs do mesmo jeito que as outras, as menos abastadas, que tinham mais acesso a esse serviço quando ele se situava no cruzamento da av. bernardo vieira com a av. 9, local por onde transitam ônibus de todas as regiões do município, prédio público, que se encontra abandonado desde o início da atual administração, sem a menor perspectiva de ser reformado, enquanto nós, cidadãos potiguares, pagamos aluguel da atual sede. fora isso, a demanda elevada de qualquer serviço de pronto atendiento é reflexo do descaso com os serviços de atenção básica que estão funcionando por livre e espontânea vontade dos seus servidores que estão chegando ao ponto de comprar do próprio bolso toalhas, papel higiênico, café, açucar, etc, além da falta de profissionais nas unidades básicas. Grande parte da cidade não é coberta por equipes de saúde da família e os bairros que o são, têm suas equipes incompletas, suas unidades com esgotos a céu aberto dentro das próprias unidades, como é o caso da usf felipe camarão básica, áreas de cobertura sem saneamento, lixo pelas ruas, falta de medicamentos entre outras mazelas. Claro, se a saúde básica funciona, não sobrarão motivos pra se inaugurar upas, nem pra privatizar o sus, como está estampado em todos os jornais da cidade, nem pra se alugar hotéis de luxo na beira-mar para sediar a secretaria de saúde em questão, muito menos para se contratar hospitais privados como é o caso do hospital memorial que leva três milhões por ano enquanto o hospital dos pescadores, a us cidade da esperança e outros serviços sofrem das mais básicas privações. afinal, saúde básica não dá dinheiro. múcia teixeira, 48, atriz de teatro.

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