Cameron versus Cameron

22 de fevereiro de 2010

Kathryn B, que venceu recentemente o Bafta, o oscar britânico, como diretora e com Guerra ao terror

Que injustiça. Mesmo separada há quase duas décadas, Kathryn Bigelow vai ao Oscar sendo eternamente citada como ex-mulher do chefão James Cameron.

Se o ex-marido concorre com o colorido mais que exuberante de (dizem, ainda não vi) Avatar, Bigelow contra-ataca com o quase cinza Guerra contra o terror.

E eu fiquei sem entender o porquê da escolha: Guerra contra o terror não é exatamente o estereótipo dos filmes oscarizáveis – embora tenha tudo o que faz de um filme um candidato de responsa à estatueta. Violência, suspense, bons personagens, boas interpretações e uma história que prende o espectador na cadeira do começo ao fim.

Fora isso, não há muitas concessões à obviedade: não se faz acompanhar de nenhuma trilha sonora edulcorante, não tem cenas de beijos, sexo ardente ou romântico, nem de conteúdo moralizante. E olha que o tema é delicado: a presença americana no Iraque através do cotidiano de um grupo de soldados que passa os dias procurando e desarmando bombas e contando os dias para o pesadelo acabar. Poderia render um panfleto tendencioso – e haverá quem ainda enxergue assim – e superficial no velho estilo mocinho versus bandido, bem contra o mal. Etc. E o eixo do mal, sabe-se hoje, pré e pós 11 de setembro, fala árabe, se veste como árabe, tem cara de árabe. Blá-blá.

O que Bigelow propõe e consegue é humanizar e individualizar a presença militar americana. O protagonista é alguém a serviço da causa, mas não se confunde totalmente com ela. Ao contrário do coadjuvante (não acaso um negro?) que prefere não fugir um milímetro das regras, o homem que desarma as bombas é o homem-bomba às avessas: um louco. Mas sem fé nem causa fanática, a não ser contrariar o destino, desativando bombas que têm, literalmente, tudo para explodir.

Existem outras diferenças sutis que fazem de Guerra contra o terror um filme à parte e à margem do chavão hollywoodiano, e ouso dizer que a explicação intrínseca é, acima de tudo, uma questão de gênero: a ex-mulher de James Cameron – desculpa, a sra. Bigelow – faz um filme de e para machos, com 99% do elenco formado por homens e ainda assim obtém um resultado indiscutivelmente feminino e que seria mais pesado e indigesto nas mãos de um diretor com testosterona demais.

Não à toa o cowboy desarmador de bombas só foge uma vez do perigo: quando uma matrona iraquiana solta os cachorros em cima dele por ter invadido sua casa.

Daí a ironia do destino enfrentado pela diretora, de ter seu passado conjugal ainda revisto a torto e a direito. E ainda ser obrigada a ler na mídia o ex-marido dizendo que torce por ela.

Bigelow, aliás, já tinha mostrado seu diferencial na direção no filme que lhe rendeu alguma fama, Caçadores de emoção, de 1991, coincidentemente ou não o ano em que se separa de Cameron (como informa gentilmente a wikipédia). A história de um policial (Keanu Reeves) que se infiltra num bando de ladrões de banco ia muito além da dobradinha pipoca com refrigerante. Os bandidos não apenas eram originais, usando máscaras de ex-presidentes americanos durante os assaltos, como nas horas vagas caçavam, pois, muitas emoções: surf, pára-quedismo, e tal. Rolava ainda um triângulo amoroso entre Reeves, Patrick Swayze e uma atriz de cabelo curto que não me lembro o nome e que sumiu das telas. Enfim, quem não viu vale ver. Até pra conferir aonde chegou a diretora em 20 anos de uma carreira discreta.

Imprescindível ainda dizer duas ou três coisas: a primeira é que Guerra ao terror não é nem um pouco recomendável àqueles que só desejam um entretenimento leve para acompanhar o milho torrado com ou sem manteiga. A segunda é que é provavelmente o primeiro, e será, no futuro, um dos mais importantes de uma nova safra de filmes de guerra: adeus Vietnã, bem-vindo Iraque, Afeganistão e Oriente Médio. O século 21 já tem seu Full metal jacket. Mas, não, não digam que Kathryn é um Kubrick de saias.

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