Cadernos de caligrafia: Magris

2 de junho de 2010

Página 206 da primeira edição de Às cegas : romance / Claudio Magris ; tradução Maurício Santana Dias – São Paulo : Companhia das Letras, 2009, final do capítulo 47:

[...] Aquele pedaço da minha vida é maior que minha vida inteira, um minuto contém horas e uma hora contém anos, ainda que se dissolva tão rápido.

Capítulo 48, páginas 207, 208:

É, se dissolve. Se fosse só isso, paciência. Um beijo, no fim das contas, é apenas um beijo, um soldadinho em dia de folga deve ter o direito de divertir-se um pouco. [...] Como é possível sustentar o amor? Não digo uma mulher. Uma mulher ainda vai. [...]

Uma mulher ainda vai, mas e o amor? Ele desmorona sobre você, esmaga-o. Já é bem duro viver, sobreviver, desviar-se dos golpes que chegam de todos os lados, soltar ou puxar a vela no instante exato, antes que o barco se arrebente ou vire; envelhecer, adoecer, ver morrer amigos, acertar as contas com a infâmia, a vergonha e a traição que você traz dentro de si. E como se esse acúmulo não bastasse, ainda o amor? É uma guerra muito dura, entende-se perfeitamente que às vezes não resta nada senão desertar.

Final do capítulo 49, página 213:

[...] Toda vez que a morte estava para me alcançar, eu deixei o amor cair, um pedaço do meu coração; atirei-o à matilha faminta em meu encalço, escapei mais leve.

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