Cadernos de caligrafia: Chandler

3 de julho de 2010

No dia em que o Brasil perdeu a copa de 2010 (ou seria 2014?) eu me arrisquei a aventurar-me no maior shopping da City, driblando a chuva e o trânsito e assistindo da janela o ar mal-humorado dos garçons dos bares – mais, desconfio, por um senso real de patriotismo do que pelo menor número de clientes sedentos. Tudo que eu tinha a fazer era comprar um livro pra minha pequena – o primeiro volume de Querido diário, otário, uma série de um tal Jim Benton. Mas, Querido diário, otário, é melhor fingir que isso nunca aconteceu estava em falta nas prateleiras. Assim, ela escolheu o #2, Querido diário, otário, tem um fantasma na minha calça! Ela leu um bom número de páginas e soltou igual quantidade de risadas enquanto mastigávamos qualcosa no café – eu, um brownie quente com sorvete, ela, a famigerada torta alemã. Por mim, eu precisava de algo semelhante. Falo de livros, porque o brownie quente com sorvete já estava de bom tamanho. Estava decidido a levar o Coetzee de Verão, porque Coetzee é um dos autores que ainda rendem um certo prazer na leitura de romances, outrora um vício, e perdido nos últimos anos, ou obnubilado por leituras mais cadentes ou tendentes à realidade do que pra ficção fantasiosa. Mas aí, aí, aí, nesse flanar inconstante entre prateleiras e gôndolas do supermercado, digo, livraria, rumo da bilheteria, digo, do caixa, vi apontar o nome mágico de Chandler, Raymond. Assassino na chuva, o título. L&PM, 2006, tradução de Beatriz Viégas-Faria. Eu adoro Chandler, talvez mais do que Hammett, com certeza mais do que Hammett, com certeza muito mais do que Hammett. O motivo não carece de explicações. Mas basta abrir uma primeira página ao acaso pra entender. Eu fazia isso com o I Ching, quando tinha preguiça de jogar as varetas ou as moedas. Saía sempre algo como “fogo sobre a montanha, a imagem do Penetrante” ou “o poder de domar do grande” ou qualquer outra metáfora poética e fantástica. É claro que eu não esperava nenhum poder oracular de Chandler – mas o fato é que dei de cara com a página 183, onde o personagem, sempre um detetive particular fodido e sem trabalho, elucubra sobre um cartão de visitas que lhe caiu em mãos. O cartão, descreve o americano, era “muito fino, cor marfim, masculino no tamanho” e mostrava apenas duas palavras gravadas:

Soukesian (Vidente)

O que RC faz das duas palavras é um resumo, síntese ou diapasão da sua capacidade de escrever:

Eu tinha uma vaga idéia de qual devia ser o negócio dele e que tipo de gente compunha sua clientela. E, quanto maior o negócio, menos ele iria anunciar. Se você desse a ele bastante tempo e bastante dinheiro, ele podia curar tudo, desde um marido cansado até uma praga de gafanhotos. Devia ser um perito em mulheres frustradas, em casos amorosos complicados e espinhosos, em rapazes que saíam de casa e não mandavam notícias, em saber se uma perspectiva ou outra vai prejudicar a minha imagem junto ao meu público ou melhorar. Até homens provavelmente se consultavam com ele: sujeitos que gritavam ordens como búfalos furiosos no escritório e assim mesmo não passavam de mingau morno e insosso por dentro. Mas a maioria seria de mulheres: mulheres com dinheiro, mulheres com jóias, mulheres que poderiam ficar macias como seda ao toque de uma elegante mão asiática, mulheres que ficariam cegamente obedientes a um Soukesian, o vidente.

Um Já Comentou para “Cadernos de caligrafia: Chandler”

  1. Jarbas Martins disse:

    delícia, mario ivo, essa tua caligrafia poppósmultimidiática. que bom ter surpresas aos 67 anos.

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