Cadernos de Caligrafia: Caldas

1 de agosto de 2010

João Lins Caldas é, foi, um desses poucos poetas potyguares com alguma estofa a mais que o comezinho e usual muito barulho por nada. Nasceu em Goianinha, 1o de agosto de 1888, mas passou a infância, a adolescência e a velhice em Açu, onde morreu, meio pobre, meio esquecido, meio frustrado, como sói acontecer.

Aos 24 anos bateu asas na direção do Sul Maravilha, Rio, Sampa, Geraes.

O escritor José Geraldo Vieira transformou João Lins em personagem do romance Território humano.

A descrição, não-ficcional, de Caldas por Vieira:

Trabalhava como revisor de jornais à noite; vivia na Biblioteca Nacional, de tarde; almoçava e jantava sanduíches de mortadela e caldo de cana, na Galeria Cruzeiro; perpetrava vinte a trinta sonetos por dia em abas de carteiras de cigarros, ou beiradas de jornais. [...] Riscou na vida um triângulo cujos lados eram Dante, Shakespeare e Nietzsche; dentro se encravou como um tigre assanhado contra a estupidez e a corrupção humana. Não admitia emprego público; odiava a política; tinha um caráter sem jaça e uma susceptibilidade incrível. Naquele tempo seria classificado sumariamente como louco.

No início da década de 30, o poeta voltou a Açu, onde comprou um sítio – a “Frutilândia” – e se isolou completamente. Em 1958, por iniciativa de Celso da Silveira, veio a Natal, onde e quando foi saudado, festejado, hosanado pela jovem intelectualidade da época – além de Celso, Berilo Wanderley, Myriam Coeli, Newton Navarro, entre outros.

Oito anos depois de morrer, a Fundação Zé Augusto publica uma antologia poética, livrinho fino mas consistente, e que ainda pode ser comprado na “livraria” da Fundação.

A carta não lida é a que segue. Para ser relida:


A CARTA NÃO LIDA

Estou em que não lerás mais nunca a doçura expressiva dessa minha carta.

Perdoa. A doçura expressiva dessa minha carta.

Estou em que não lerás mais nunca.

Mas lerás sem dúvida uma outra carta.

Uma carta sem nunca a tonalidade da minha doçura.

Uma carta sem nunca a tonalidade expressiva dessa minha carta.

João Lins Caldas

2 Já Comentaram para “Cadernos de Caligrafia: Caldas”

  1. Jarbas Martins disse:

    oportuno e belo perfil de joão lins caldas. acabei de postar em meu twitter (jarbas_martins):”cascudo, franklin jorge, moacy cirne.três provincianos brigando com o provincianismo”.tivesse lido antes sua crônica, mário ivo, teria incluído você como quarto mosqueteiro.o defensor do grande joão lins caldas.

  2. Mário Ivo: Além de primo sou entusiasta do grande bardo açuense João Lins Caldas. Parabéns pela crônica e pelo seu blog. Postei em meu blog: BLOGDOFERNANDOCALDAS.BLOGSPOT.COM – Abraços…

    Fernando Caldas

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