Bullying, balé, bulir [SPOILER]

17 de fevereiro de 2011

Degas

Depois que inventaram a palavra spoiler fica difícil falar sobre cinema.

Tudo, tudo, tudo – aliás – tudo torna-se difícil diante do gênio norte-americano e sua inesgotável capacidade de catalogar o mundo, o universo, os anéis de Saturno e as ranhuras da alma humana e de resumi-los e encaixotá-los e acomodá-los em único termo, sem deixar rastros ou excessos e nenhuma sujeirinha no chão.

Por exemplo: o já citado spoiler.

Outro exemplo: bullying.

Qualquer tabareuzinho, pivete, grumete, boy, enfim, semi-analfabeto ou analfabeto total que seja, a essa altura do campeonato e da segunda linha do quinto parágrafo, sabe muito bem o que é bullying. E isso, lá em Jucurutu, como em Bodó, Rio do Fogo, Caiçara do Rio do Vento, Olho-d’Água do Borges ou Frutuoso Gomes – os nomes, claro, todos aleatórios, sim. E padece – o boy, o grumete, o pivete, o tabareuzinho da taba – de bullying, e sofre com o bullying, e pratica (os maus, os maus) o bullying, e são capazes, sim, de soletrar o termo anglo-saxão, de trás para diante, de frente pra trás, sem esquecer que depois do ípsilon vem o i, e o ele – ou lê – é duplo.

Sim. Pois. Tal.

Mas eu falava de spoiler porque estava para contar o meu encontro com o emplumado Cisne negro. E não dá pra comentar muita coisa sem que certas “surpresas” sejam reveladas.

Então. Umas poucas.

O Cisne negro nada mais é que a versão do velho e clássico O lago dos cisnes, balé que divide com O – e aqui estou chutando – quebra-nozes a euforia sem noção das mocinhas de 15 anos.

O Cisne negro, nestes dias que antecedem ao Oscar, divide com A rede social a euforia sem noção das torcidas, organizadas em torno de uma paixão que esquecerão e abandonarão antes que o ano finde, e, como toda paixão, alimentada sabe-se deus porquê.

O Cisne negro tem uma excelente atriz protagonista e uma razoável personagem protagonista.

O Cisne negro tem meia-dúzia de atores bons com interpretações ruins, em sintonia com o caráter de seus personagens – e o exemplo clássico e cerejinha do bolo é o Sr. Vincent Cassel, um bom ator em Inimigo público n˚ 1 e Irreversível, para ficarmos em apenas dois exemplos.

O Cisne negro é um emaranhado sem fim de estereótipos sobre sedução, sexo, obsessão, lesbianismo, contorcionismo, dor, mamãezinhas queridas e psicologia de pagode de fundo de quintal, especialmente quando ensaia um flerte borgiano através de um jogo malajambrado de espelhos e a sombra estéril do duplo – o diretor fica nos devendo uma missa negra, pois.

O Cisne negro tem duas ou três sutilezas, de uma poesia singular, e centenas de excessos grotescos que ultrapassam o ridículo em faixa contínua, e arrastam-no do drama para o terror, do terror para o dramalhão, do dramalhão para o fim, quando, graças ao bom deus, a protagonista [SPOILER! SPOILER! SPOILER!] morre. Depois de autoflagelar-se, autobulir-se, autobulinar-se, sem dó, sem piedade, principalmente de nós, espectadores.

*

PS Vou dizer. Desconfio que a intimidade com o termo que define a velha pratica de perturbar (mas que inferno!) o paraíso dos outros, venha da mesma raiz latina. “Mãe, Fulano tá bulindo com eu” – isso era comum ouvir na infância. Ou, “Bula aí, não, menino”. Ainda: “Buliu com a moça? Vai ter que casar”.

3 Já Comentaram para “Bullying, balé, bulir [SPOILER]”

  1. Eu ando vendo os filmes “do Oscar”. Cisne Negro foi o primeiro e penso que essa é a grande praga do filme: ser indicado ao Oscar e com isso arrastar nossas expectativas para o alto. Aí, concordo com sua avaliação e me aborreci com os clichês que permeiam todo o filme. Ele funciona bem como uma alegoria sobre a criação do personagem ou do papel – se eu ainda ensinasse teatro, usaria para exemplificar “o método” e para sublinhar a leitura de Stanislavski. É uma boa forma de ver o filme e tirar algum prazer dele: entender tudo como uma alegoria sobre “a criação do papel” porque se não for assim vira o que você disse aí em cima: dramalhão, clichê…
    Hoje vou ver Annette Bening em Minhas Mães e Meu Pai (ou Meu Pai e Minhas Mães, enfim, The Kids Are All Right)

  2. [...] This post was mentioned on Twitter by mario ivo cavalcanti, mario ivo cavalcanti. mario ivo cavalcanti said: bléqui suán http://www.marioivo.com.br/bullying-bale-bulir-spoiler/ [...]

  3. Jarbas Martins disse:

    e só resta balir (influência do carito) como um bezerro desmamado. e o sabor disfórico da tua crônica, mario ivo.

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