Berlusconi, as mulheres e os gays

8 de novembro de 2010

É melhor ser apaixonado por belas mulheres do que ser gay.

Assim, fora do contexto, a frase do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi – o homem mais rico da Itália – soa mais como uma batuta homofóbica e tão somente.

O buraco é mais embaixo.

A declaração é a cerejinha no bolo de mais uma confusão envolvendo o premiê e as mulheres. No início do ano, uma marroquina foi presa acusada de furto. A polícia ficou surpresa quando o próprio Berlusconi telefonou pedindo sua liberação, alegando que a jovem seria sobrinha do presidente do Egito. Os jornais souberam, publicaram matérias, ouviram a moça, que usava, em solo italiano, o sonoro codinome Ruby Rubacuori. Ou seja, Ruby “Roubacorações”.

E, claro, não era sobrinha coisa nenhuma de Mubarak.

Pois, La Rubacuori alega que, não, não assaltou o coração de Berlusconi. Esteve apenas em uma festinha organizada pelo primeiro-ministro, uma das tantas que costuma realizar, sempre com muitas mulheres – e quando se diz “muitas” não é exagero, aliás. E que na saída recebeu um envelope contendo sete mil euros. Por que? Ah, porque o premiê soube que a moça passava por algumas dificuldades. Pura solidariedade.

O problema é que Ruby, à época, tinha apenas 17 aninhos.

Com a imprensa pegando no seu pé, não restou a Berlusconi se defender, daí a máxima:

É melhor ser apaixonado por belas mulheres do que ser gay.

A desculpa não colou. Até a direita italiana, que caminha sempre de braço dado com Berlusconi, pede a renúncia do ministro.

Sábado à noite, os embalos seguem em Milão, na discoteca Borgo dei Sensi Il Karma, que tem como slogan a frase ambiguamente espiritual “a flor de lótus não conhece as razões do seu flutuar”.

Pois.

Abaixo, a tradução livre de um artigo [publicado aqui] da blogueira italiana Livia Iacolare, ativista dos direitos LGBT, e assumidamente lésbica. Noves fora os personagens e o país envolvidos, a realidade é comum a muitos países ocidentais.

*

As últimas declarações do premiê deixam pouco espaço a interpretações: é melhor olhar belas garotas do que ser gay. Refleti um pouco e, depois de me liberar de qualquer preconceito, entendi que Berlusconi tem razão. Sim, acredito que Berlusconi nunca disse nada tão verdadeiro em toda a sua vida pública. Admirar as belas formas de uma mulher na flor da sua juventude é infinitamente melhor do que ser homossexual. Vocês sabem o que é ser homossexual na Itália? Direitos civis zero, discriminação no trabalho, bullying, violência… Respondam objetivamente a pergunta: vocês têm certeza que, podendo escolher, preferem mesmo ser homossexuais neste país? É conveniente? O nosso presidente sabe muito bem o que diz quando fala e o que emerge do seu discurso é um sensação de alivio. “Ainda bem!”, pensa, “ainda bem que não nasci gay neste país de merda!”. Na Itália é muito mais invejado quem – com 80 anos e lá vai fumaça – pode admirar e desejar a beleza de dois jovens seios e contar vantagens sobre o caso. Muito mais feliz quem pode comprar uma mulher e uma casa com dois tostões. Infinitamente mais sortudo quem sabe que jamais será punido por suas culpas. “Melhor ser Berlusconi”; é essa a mensagem subliminar. [Livia Iacolare]

2 Já Comentaram para “Berlusconi, as mulheres e os gays”

  1. Luiz Lima disse:

    Caro Mario, finalmente chegamos (com enorme atraso) ao momento em que “il Cavaliere” està com os dias contados. Vale a pena acompanhar o noticiario durante esta semana. Abraço, Lola

  2. [...] Ironicamente, trinta e cinco anos depois do assassinato de Pasolini, o primeiro-ministro da Itália afirma que é melhor olhar as garotinhas do que ser gay. O que não deixa de ser verdade, como bem argumentou Livia Iacolare. [...]

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